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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Titãs - "Cabeça Dinossauro" (1986)

O MELHOR DISCO NACIONAL DE TODOS OS TEMPOS
"Oncinha pintada,
zebrinha listrada,
coelhinho peludo,
Vão se foder!"
letra de "Bichos Escrotos"


"Cabeça Dinossauro". Assim mesmo, sem a preposição. O nome já dava mostra do que estava contido ali dentro daquela capa genial e incomum que ao mesmo que impactava pelo grotesco, completava o conceito geral da obra: a cabeça dinossauro era uma transfiguração, uma metamorfose em monstro, um retorno ao primitivo, era uma digressão à língua, um não aos padrões. A própria canção homônima que abria o disco com sua batida tribal e letra 'primitiva' era retrato fiel e confirmação da proposta.
Letras simples, versos curtos, mínimos e minimalistas, aliterações, repetições e discursos diretos. Assim os Titãs deram uma reviravolta na própria carreira, até então sem uma personalidade musical definida, e construíram um dos discos mais notáveis e criativos do rock nacional. Aquilo era butal, era violento na essência, era agressivo como nunca a música popular ousara ser a tal ponto, disparando contra religião, autoridades, estado, família e capitalismo com doses variadas de desprezo, ira e ironia. Quer mais que afirmar que não gostavam de Cristo; mandar dar porrada em quem não desse nenhuma contribuição ao mundo; ou mandar os bichinhos fofinhos se foderem? Aliás, "Bichos Escrotos", que trazia este xingamento, ainda que não fosse a mais brilhante do disco, não pode deixar de ser mencionada sobremaneira por uma quebra definitiva de paradigmas na mídia por conta do "FODER" de sua letra que era cantado incessantemente pela garotada, independente da proibição de execução pública expressa na contracapa. Num país com a democracia recém instaurada e uma liberdade de expressão ainda combalida, o resultado foi que sua popularidade foi tanta, a música era tão conhecida e entoada por todos que mesmo sem ser revogada, sua proibição caiu por terra naturalmente e a faixa passou a tocar sem corte em muitos segmentos dos meios de comunicação. E, ao contrário do que soava aos pais e moralistas de plantão naquele momento, "Bichos Escrotos" não se limitava a um palavrão gratuito: aquele grito era um não à beleza artificial, ao padrão estético, uma convocação à atitude, sendo um dos mais significativos símbolos da virada que os Titãs davaam com aquela obra.
Outro momento marcante da obra é a descontrolada "A Face do Destruidor", um hardcore extremamente agressivo e veloz na execução e na duração (apenas 34 segundos) que de certa forma justificava que nada se cria e tudo se transforma mas que às vezes é importante botar tudo abaixo para construir novamente. E era o que eles estavam fazendo.
"Cabeça..." ainda traz um dos maiores clássicos do rock brasileiro de todos os tempos que ganhou inúmeras regravações, homenagens, referências, performances de todo o tipo e qualidade de artistas, de Sepultura a Marisa Monte: "Polícia"; um punk rock implacável que incrivelmente venceu no mundo pop sem fazer concessões de letra nem estilo, gravando na memória do Brasil dos refrões mais conhecidos e populares da música nacional.
Fruto da multiplicidade de estilos de um time de oito cabeças com origens, inspirações e gostos musicais distintos e da mão certeira do produtor e parceiro Liminha, "Cabeça Dinossauro" era punk na maior parte das vezes mas era tão fora dos padrões que podia trazer um raggae como "Família", um ska como "Homem Primata" ou "O Quê?", um funk estraçalhador com uma linha de baixo toda quebrada, cheio de teclados e uma interessantíssima mescla de bateria acústica com eletrônica, delineando um inquietante jogo de palavras que não cansava de perguntar e ao mesmo tempo responder "o que é que não pode ser?". E o que é que não poderia ser depois daquilo? Podia-se tudo e aquela obra ajudava a afirmar isso.
Até mesmo como resultado de experiências como a de "O Quê?", os Titãs chegariam a resultados, talvez, melhores tecnicamente com seus dois álbuns de estúdio seguintes, "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguleas" e "Õ Blésq Blom", mas "Cabeça Dinossauro" já tinha metido o pé na porta e por este rompimento, por sua profusão de ideias e estilos, pela sua reconceituação num dos momentos mais importantes da retomada do rock brasileiro, seu impacto e reflexos, este é, minha opinião, simplesmente o maior disco do rock brasileiro de todosos tempos.

FAIXAS:
1. "Cabeça Dinossauro" (Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos) – 2:20
2. "AA UU" (Marcelo Fromer, Sérgio Britto) – 3:01
3. "Igreja" (Nando Reis) – 2:48
4. "Polícia" (Tony Bellotto) – 2:06
5. "Estado Violência" (Charles Gavin) – 3:10
6. "A Face do Destruidor" (Arnaldo Antunes, Paulo Miklos) – 0:34
7. "Porrada" (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto) – 2:51
8. "Tô Cansado" (Arnaldo Antunes, Branco Mello) – 2:18
9. "Bichos Escrotos" (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto, Nando Reis) – 3:13
10. "Família" (Arnaldo Antunes, Tony Bellotto) – 3:32
11. "Homem Primata" (Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Sérgio Britto) – 3:27
12. "Dívidas" (Arnaldo Antunes, Branco Mello) – 3:08
13. "O Quê" (Arnaldo Antunes) – 5:40

FORMAÇÃO (em 1986)
Arnaldo Antunes: vocal
Branco Mello: vocal
Charles Gavin: bateria e percussão
Marcelo Fromer: guitarra
Nando Reis: baixo e vocal
Paulo Miklos: baixo (em "Igreja") e vocal
Sérgio Britto: teclado e vocal
Tony Bellotto: guitarra

PRODUZIDO POR LIMINHA

Download

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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Titãs - "Õ Blésq Blom" (1989)



“Do radinho de pilha às produções do Liminha
(e este novo disco e um escândalo de textura e limpidez sonora)
os Titãs vem marcando a vida brasileira
com suas canções brutas e límpidas
seus temas básicos apresentados em forma de anti-panfletos
canções crescentemente gráficas, cujos títulos
(“Comida”, “Televisão”, “Flores”, “Igreja”, “Miséria”, etc.)
parecem a um tempo bastar, faltar e sobrar;
canções-cartaz, canções-pichação, palavras-de-desordem
(em ordem) que os aproximam da poesia concreta
no momento “salto participante”, palavrões limite.
Bichos escrotos.
Cabeça dinossauro.
Alta sofisticação intelectual e tecnologia aliada a brutalidade.
Titãs andando com desenvoltura em ambiente de eletrônica miséria.
Õ Blésq Blom."
Caetano Veloso


Depois de "Cabeça Dinossauro", um álbum que revolucionara a música brasileira, foi gerada uma grande expectativa a respeito de seu sucessor, um misto de incredulidade e esperança de que o trabalho seguinte conseguisse no mínimo, chegar perto da qualidade daquele. E não só conseguiu se se aproximar o como superou. Embora a aura e a mitologia mantenham “Cabeça dinossauro” como uma lenda da discografia brasileira, tecnicamente falando, "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" era superior a seu antecessor. Era um passo adiante no que dizia respeito à linguagem, à experimentação, ao minimalismo, à força, ao conceito e à produção. Mas e então o seguinte? Está certo que nesse meio tempo entre um álbum e outro, foi lançado o excelente “Go Back”, um registro ao vivo em Montreux, que apoiado em grande parte no repertório dos dois álbuns citados, mantinha o nível de qualidade do momento que a banda vivia.
Mas de estúdio? Material novo? O que fariam desta vez? Os Titãs poderiam fazer alguma coisa melhor que “Cabeça Dinossauro” e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”?
Por incrível que possa parecer a resposta era SIM!
Embora "Cabeça Dinossauro" permanecesse incólume em seu Olimpo como o grande álbum brasileiro de todos os tempos, pelo seu rompimento, inovação, linguagem, “Õ Blésq Blom”, de 1989, era ainda mais trabalhado tecnicamente, os conceitos haviam sido aprimorados, a agressividade filtrada, o experimentalismo amadurecido, elementos de música brasileira eram agregados e o resultado disso tudo era um disco simplesmente brilhante.
Desde a concepção da capa, com uma colagem meio punk/pop art que já sugere a ideia musical de superposição de elementos com a utilização de fontes diferentes e disposição livre para compor o nome do álbum, que por sua vez já é uma pequena composição concretista, o disco já se mostra especial. A impressão de que ali há algo diferente se confirma assim que o álbum inicia com a vinheta de abertura, uma gravação de dois artistas de rua da Praia da Boa Viagem, Mauro e Quitéria, numa espécie de rock'n roll-repente multi-idiomático que serve de introdução para a espetacular “Miséria”, que aí sim, abre o disco, efetivamente. Um petardo eletrônico, quebrado, com influências que incorporam funk, punk, reggae, rap contando com incontáveis e variados recursos de estúdio. Dançante, vibrante, surpreendente pela ousadia e pela sonoridade, “Miséria”, como primeira faixa era estrategicamente responsável por apresentar a nova proposta dos Titãs e mostrar a que vinha “Õ Blésq Blom”.
A inteligentemente provocativa “Racio Símio” seria um daqueles tradicionais rocks agressivos e pesados dos Titãs se não fosse a produção caprichada, cuidando de cada detalhe e instrumento. A descontraída “O Camelo e o Dromedário” confirmava que a banda continuava nos caminhos já trilhados em reggaes como “Marvin” e “Família” só que com um tratamento mais experimental de coisas como “O Quê?”, e ao mesmo tempo mais técnico de músicas como “Comida” e “Diversão”.
“Palavras” de ritmo acelerado, letra interessante e bom trabalho de guitarra é apenas boa; mas “Medo” que a segue é excepcional. Punk rock típico Titãs com uma estridente guitarra minimalista de Tony Belloto e vocal furioso de Arnaldo Antunes para sua própria letra que versa sobre o processo de criar e de sentir a arte.
Com “Flores”, grande sucesso em rádios e TV's, de vídeo premiado na MTV americana, talvez os Titãs tenham conseguido o grande ponto de equilíbrio entre sua proposta roqueira e seu alcance popular com uma canção pop impecável que agradava tanto aos fãs quanto ao grande público sem abrir mão da linguagem formal, verbal e sonora características.
Talvez o grande momento técnico e criativo do álbum seja “O Pulso”, composição inspiradíssima sob todos os aspectos: a produção do nono Titã, Liminha, que entendeu a proposta e ajudou a materializar um elemento musical praticamente orgânico, a instrumentação precisa numa música de estrutura pouco convencional, e a letra mutante e instigante de Arnaldo Antunes. Com uma programação eletrônica que se repete constante do início ao fim da música, remetendo aos batimentos cardíacos, “O Pulso” cria uma admirável ligação som-conteúdo por conta de sua letra, uma listagem de doenças do corpo e da mente, intercaladas com outros elementos, como rancor, ciúme e culpa, que por analogia acabam por ser tratadas pelo autor como males tão sérios. Os Titãs que já perguntaram de que tínhamos fome, agora perguntavam do que estávamos adoecendo e, na entrelinha, se valia a pena.
“32 Dentes” talvez seja a mais brasileira das músicas do grupo, com uma levada muito à sertanejo num punk-rock agressivo que em poucas frases manifesta toda a descrença e decepção com a humanidade; a interessante “Faculdade” lembra um pouco o formato de “Miséria” porém não com a mesma qualidade; e “Deus e o Diabo”, outra das experimentações eletrônicas, um funk meio hip-hop, com uma letra toda dicotômica que fala, de certa forma, sobre os conflitos internos que há em cada um de nós, termina emendando em outra palhinha de Mauro e Quitéria com seu rock-repente numa vinheta final que arremata o álbum como uma síntese de tudo o que se apresentou até ali: intuitividade, espontaneidade, poesia, improvisação, brasilidade, rock'n roll.
Agora sim, se alguém duvidava que depois de “Õ Blésq Blom” os Titãs não fariam nada melhor, acertou. Tentando provar coisas para si, para os outros, errando em escolhas, perdendo integrantes, fazendo excessivas concessões, cedendo às exigências da mídia, tentando agradar, envelhecendo em espírito, os Titãs se perderam. A obra ficou pobre, insossa, incoerente e enfim, irrelevante.
Mas os Titãs podem se orgulhar de, num período de aproximadamente 4 anos além de terem produzido uma das maiores trilogias da discografia nacional, “Cabeça Dinossauro”, “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” e “Õ Blésq Blom”, de terem sido uma das bandas mais interessantes do mundo naquele momento.
Parafraseando o último verso de Mauro e Quitéria na vinheta de encerramento: Os reis do rock.
Bye, bye!
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FAIXAS:

01. Introdução por Mauro e Quitéria
02. Miséria
03. Racio Símio
04. O Camelo e o Dromedário
05. Palavras
06. Medo
08. Flores
09. O Pulso
10. 32 Dentes
11. Faculdade
12. Deus e o Diabo
13. Vinheta Final por Mauro e Quitéria
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Ouça:


Cly Reis

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Aniversário do Show da HímenElástico

Há exatos 17 anos, numa sexta-feira 13, a HímenElástico fazia seu primeiro show na cidade de Alvorada, vizinha a Porto Alegre, num lugar chamado Woodstock Bar.
A HímenElástico fora o projeto musical-criativo de 4 primos malucos que costumavam passar madrugadas (sóbrios) falando e inventando doideiras de todo tipo; gráficas, verbais, musicais, ou de qualquer outra forma. Essa hemorragia criativa nos estimulou; a mim, meu irmão Daniel, e meus primos Lúcio e Lê; a tentarmos, mesmo sem tocar nada, a ter uma banda. Não era este afinal o espírito punk? Era! E era isso também que nos servia de base. O Lúcio estivera pouco tempo antes de cabeça no punk da periferia paulista Cólera, Garotos Podres, tinha também descoberto os Kennedy's, Exploited e havia levado a mim e meu irmão que fazíamos uma linha um pouco mais Rock-BR da época (Legião, Titãs, RPM). O Lúcio também tava numas de rap na época e a novidade pra mim era interessante. O tal do Public Enemy era bom pra caralho. Tínhamos também todos acabado de ouvir o "Cabeça Dinossauro" dos Titãs e talvez aquilo tenha sido a mola propulsora definitiva. Poucas notas, agrassividade, letras minimalistas. Dava pra fazer rock! Vamos ter uma banda? Mas e essa diferença toda? Eu gostava de Smiths, meu irmão de Caetano, o Lúcio de Ratos de Porão e o Lê de Thayde. Deu no que deu: uma mistura das mais interessantes, criativas e originais.
O nome era uma brincadeira entre o "Homem-Elástico" e algo bem malicioso, tanto que escreve-se originalmente o nome da banda com o Φ grego, deixando a palavra  hΦmem com uma possível dupla leitura.
Nosso som ficou muito próximo ao do nosso disco modelo, o "Cabeça Dinossauro". Lembrava um bocado Titãs, especialmente na minimalista "Nem uma, coisa nem outra" que parecia não fazer muito sentido mas (sinceramente) era extremamente questionadora, versando sobre o TER, o querer sempre mais, o não se dar por satisfeito. Era tão simplesmente-complexa que, em verdade, entre um ajuste e outro, um complemento, uma palavra aqui  outra ali, a letra demorou três anos pra ficar pronta; e depois musicalmente, acrescido som à letra, fôra uma de nossas melhores.
Não tínhamos muito compormisso exceto com nós mesmos e com a nossa diversão. Tanto que não temos grandes registros gravados. A maioria são em cassete e sem muita qualidade. Ensaiamos pra valer mesmo no dia do tal do show em Alvorada. Apresentação que o Lúcio conseguiu com alguns contatos e nos botou na jogada. Só que aí teríamos que estar mais preparados e então marcamos duas horas de estúdio no fim da tarde pra ficarmos afiados pro show à noite. Deu certo. Estávamos na ponta dos cascos. O problema foi que uma hora antes do show, com a voz desgastada, com o frio terrível que fazia e acho que um pouco pela ansiedade, a voz se foi. Só sei que estava apavorado numa mesa pouco antes de entrar no palco e veio um cara de uma outra banda e recomendou, "sabe o que que é bom pra isso? cachaça. toma uma cachaça pura que isso passa rapidinho". Segui a orientação e não deu outra.
Obra do destino ou sei lá o que, mas entramos no palco exatamente à meia-noite do dia 13 de agosto (o que na verdade já era dia 14, mas pra efeito poético-sinistro ainda seria sexta-feira 13 até raiar o sol). Em um ambiente especialmente decorado para a data tão especial, à penumbra e cheio de caveiras com velas, abrimos o show com a "Marcha-Fúnebre" emendando com nossa vinheta de abertura tradicional inspirada naqueles gritos de pelotões do exército que correm na rua: "Dá um beijo no cangote, Carolina/ Uh, Uh, Uh, Carolina...", e que já emendava com a matadora "Ex", uma das nossas preferidas, também muito minimalista que contava com uma incrível agrssividade intrínsca. A coisa seguiu na boa, acho que a galera gostou, tocamos tudo que tínhamos ensaiado até o grand-finale com "Nem Tudo Está Perdido" que com sua letra apocalíptica e executada de maneira tão catártica acabou configurar um final apoteótico da nossa apresentação.
No final fui cumprimentado sincera e entusiasticamente por um cara da Space Rave, banda de Porto Alegre que continua no circuito com algum êxito e ainda esnobei a loirinha que eu tinha dado em cima antes do show, mas que só depois da apresentação veio se querendo. Agora é tarde, baby.
Como disse, não tínhamos grande compromisso com a coisa, apesar de gostarmos muito. Eu tinha faculdade, éramos duros pra bancar estúdios, meus primos moravam longe e no fim das contas não levamos a coisa muito adiante. Mas até hoje, bem imodestamente, logo eu que sou extremamente chato para o que faço e para o que ouço, considero a HímenElástico uma das melhores coisas nacionais que já ouvi nos últimos tempos. Eu teria um CD daquela banda. Ouço bandas hoje e penso: "Cara, a Hímen já fazia isso naquele tempo e sem o menos recurso". Era criatividade pura.
Parabéns hermenêuticos pelo aniversário do showzinho de Alvorada.

ESCLARECIAMENTO AOS NÃO-HERMENÊUTICOS: Hermenêutico nesse caso não tem a menor relação com seu significado original que é de interpretação de livros sagrados ou de leis, blá, blá, blá. Adotamos a palavra para designar tudo aquilo que fosse relativo à HímenElástico.

Assim sendo, faz 17 anos do primeiro show Hermenêutico!

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Titãs - "Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas" (1987)



"(...) Uma terra onde o ídolo, o Cristo, o Deus está completamente distorcido. Então é uma frase longa que tem várias conotações, mas tem esse sentido popularesco que é usar a palavra 'banguela' associado a 'Jesus', que são dois termos tão populares e tão pouco casados que nessa frase ficam muito bem.
É o pólo positivo e o pólo negativo.
É uma equação, não é nem uma frase."
Nando Reis



Depois de um disco como "Cabeça Dinossauro", unanimidade de público e crítica, sucesso de vendas e repleto de hits radiofônicos, cercou-se de grande expectativa o lançamento do que seria seu sucessor. Conseguiria o novo trabalho dos Titãs repetir o sucesso, qualidade e desempenho do anterior, considerado quase que automaticamente um dos maiores álbuns brasileiros de todos os tempos? “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” de 1987 não só conseguiu se comparar ao clássico disco anterior, como superá-lo. Sim! Superá-lo. Embora o posto de maior disco nacional da história permaneça intocado para o  "Cabeça Dinossauro" , na minha opinião, por conta de sua ruptura, ousadia, sonoridade, criatividade, arrojo conceitual, inovação de linguagem, aquele novo disco o ultrapassava em qualidade técnica e aprimorava seus conceitos e experimentações.
O funk de “O Quê?”, por exemplo, é extremamente mais bem trabalhado e aperfeiçoado em faixas como a ótima “Comida”, dos grandes hits do álbum e “Diversão”, também de boa execução, trabalhada com samples e programação de bateria.
“Todo Mundo Quer Amor”, letra concretista de Arnaldo Antunes é o melhor exemplo da evolução do experimentalismo de um disco para o outro, numa faixa curta, minimalista, quase que apenas de transição, toda desenvolvida a partir de programações , samples e colagens; mas músicas como “O Inimigo”, que apenas repete dois versos o tempo inteiro, e “Infelizmente”, letra praticamente narrada sobre uma batida constante com inserções eletrônicas, também trazem esta característica de experimentação bem presente.
O peso, o punk, a energia mostrada anteriormente também não faltam, mas aqui, em “JNTDNPDB” aparece menos cru. A excelente “Lugar Nenhum” é mostra evidente disso numa porrada básica, agressiva, distorcida porém muito bem trabalhada pelo produtor Liminha, o nono titã; “Armas pra Lutar” é outra que carrega no peso com ênfase especial para a bateria precisa de Charles Gavin; e a ótima “Nome aos Bois”, de guitarra aguda, repetida e constante, tem o peso moderado porém é extremamente contundente sem dizer efetivamente nada, apenas listando nomes de personagens famosos e históricos, e deixando-os para quem quiser lhes atribuir os devidos predicados.
O disco traz ainda “Corações e Mentes” e “Desordem”, dois rocks bastante acessíveis, bem pop, dosando bem os elementos do disco; “Mentiras”, que apesar de ter inegavelmente qualidade e apresentar uma certa complexidade na introdução do refrão, é a mais fraca dos disco na minha opinião; e a canção que tem o nome do disco, “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” que apenas repete a intrigante frase o tempo inteiro acompanhada de um magnífico instrumental dosando peso, agressividade e técnica, com um excepcional trabalho de guitarra que aparece em solo praticamente o tempo inteiro durante o desenvolvimento da música.
Vale destacar ainda dois detalhes interessantes: um deles é a ótima capa, inteligentemente sugestiva tanto no que diga respeito a época, em se referindo a Jesus, quanto a dentes, lembrando uma grande boca desdentada; e o outro detalhe é a não identificação dos lados do LP, seu formato original de lançamento, como lados A e B ou 1 ou 2 como seria o habitual, e sim J e T objetivando, de certa forma que o ouvinte não tivesse a noção exata de qual seria o início ou o fim dos disco, podendo escolher aleatoriamente por onde começar a audição. Com o CD não teve jeito e teve-se que escolher por onde começar e começaram extamente por onde seria o meu lado B, uma vez que sempre comecei pela faixa-título do disco. Além disso o Cd traz um extra, a música "Violência" que, sinceramente, pra mim não acrescenta nada. Mas o que vale é o disco original e esse, sim, é espetacular.
Pra quem duvidava que os caras conseguissem fazer melhor, ali estava: “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” era um passo à frente. Um disco tão bom senão melhor que seu lendário antecessor.
Então agora sim, depois de dois discos como aqueles nunca mais conseguiriam fazer algo melhor.
Não?
Errado!
Ainda fariam “Õ Blésq Blom”, melhor tecnicamente, mais bem acabado e ainda mais aperfeiçoado nos conceitos que os dois clássicos anteriores. Mas isso é assunto para outra hora. Para outro ÁLBUNS FUNDAMENTAIS.

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FAIXAS:
01. Todo Mundo Quer Amor (Arnaldo Antunes) 1:18
02. Comida (Antunes, Marcelo Fromer, Sérgio Britto) 3:59
03. O Inimigo (Branco Mello, Toni Bellotto, Fromer) 2:13
04. Corações e Mentes (Britto, Fromer) 3:47
05. Diversão (Britto, Nando Reis) 5:07
06. Infelizmente (Britto) 1:34
07. Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (Reis, Fromer) 2:11
08. Mentiras (Britto, Fromer, Bellotto) 2:09
09. Desordem (Britto, Fromer, Charles Gavin) 4:01
10. Lugar Nenhum (Antunes, Gavin, Fromer, Britto, Bellotto) 2:56
11. Armas Pra Lutar (Mello, Antunes, Fromer, Bellotto) 2:10
12. Nome Aos Bois (Reis, Antunes, Fromer, Bellotto) 2:06

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Ouça:
Titãs Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas




Cly Reis

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Titãs - Gigantinho - Porto Alegre /RS (1992)

 


A belíssima arte do álbum
no poster promocional
da gravadora.
Era uma banda ferida, machucada e por isso mesmo, extremamente pilhada e disposta a dar o melhor de si.
A critica havia sido bastante dura com eles por conta de seu, então, último disco "Tudo ao mesmo tempo agora", no qual, pela primeira vez, assinavam a produção de um álbum próprio e, contrariando as expectativas, abandonavam a evolução técnica de sua genial trilogia "Cabeça Dinossauro", “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” e "Õ Blésq Blom", em nome de uma sonoridade muito mais primária, dura, com letras em alguns momentos, ainda mais agressivas que as que costumavam fazer.
O que se via no palco, no Gigantinho, naquela noite de 1992, eram oito caras determinados a mostrar que haviam feito a escolha certa. Que o caminho musical que haviam escolhido era aquele mesmo e estavam unidos em bancar sua convicção. Poucas vezes vi uma banda com tanta gana. Os cinco vocalistas que se revezavam no microfone, ao passarem o comando para o seguinte, se abraçavam, batiam as mãos com o outro, faziam sinais de cabeça de aprovação dando moral para o companheiro. Parecia aquele time determinado a ganhar, com os jogadores vibrando até por lateral.
Todo esse tesão não poderia dar em outra coisa senão em um show eletrizante. Mas se engana quem pensa que somente essa energia foi o que segurou o show. O repertório era bom! A imprensa pegou no pé do disco por não ser tão requintado e sofisticado quanto os anteriores e pelo expectativa que se criará em cima da evolução que acontecerá até ali, mas "Tudo ao mesmo tempo agora" tinha muita coisa boa. "Clitóris" que abria o show com força e intensidade; "Cabeça", agressiva; "Agora" musicalmente uma das mais elaboradas do disco; e a carro-chefe, a arrebatadora "Saia de Mim", figuram entre as melhores do repertório da banda e, como não podia deixar de ser, foram alguns dos grandes momentos do show. Isso sem falar em outras já conhecidas, como "O Pulso", "Comida", "Diversão", que dentro da proposta mais crua da turnê, ganhavam releituras ao vivo sem todo o aparato técnico de programações, samples e lapidações de suas versões originais.
Um show no qual os Titãs, com sua performance, entusiasmo, força, defendiam com convicção sua obra, a qual, por fim, com o tempo, acabou recebendo o devido reconhecimento, sendo hoje visto por grande parte dos fãs e até pela crítica, como um dos grandes trabalhos da banda e um dos mais significativos de sua época.
Quantas vezes a gente vai num show e fica com aquela sensação de que o artista só está ali cumprindo contrato, doido pra passar o tempo e passar no caixa pra pegar o cachê? Pois isso passou longe do que se viu naquela noite no Gigantinho. Aquilo era uma banda afinzona, babando, com sangue nos olhos...
É bom ver um show assim.


Show dos Titãs da turnê "Tudo ao mesmo tempo agora",
no Imperator - Rio de Janeiro, em 1992



Cly Reis

sábado, 15 de julho de 2017

Museu Nacional / UFRJ - Rio de Janeiro / RJ









O Museu Nacional, prédio que foi residência
da Família Imperial de 1818 a 1889.
A nossa seção ClyArt embora destine-se efetivamente a, como sugere o nome, trazer produções artísticas, também presta-se a mostrar os espaços onde estas obras sejam expostas e por extensão, acaba também destacando as galerias, espaços culturais e museus, sendo que especialmente este último abrange uma possibilidade mais ampla, podendo ser local para exposição e dos mais variados tipos de produção artística do homem, bem como local destinado à preservação do patrimônio cultural e histórico da humanidade. Assim, vez por outra destacamos aqui algum destes espaços culturais que se afastam dos padrões artísticos específicos mas que contém valor humano e histórico imprescindível. Desta vez visitamos o Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, prédio histórico que serviu à Família Imperial brasileira no séc. XIX, que esteve meio abandonado, meio largado mas que agora, embora não na plenitude de suas condições, apresenta boas condições de visitação e um acervo muito significativo e em bom estado. O Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, é voltado à pesquisa científica, histórica e antropológica possuindo um acervo valiosíssimo em todos os seus segmentos. Possui, por exemplo, significativos fósseis de procedências diversas; registros materiais humanos de datas remotas; artefatos e relíquias de civilizações de diversos sítios; múmias de altíssimo valor histórico em ótimo estado de conservação; grande variedade de amostras animais e geológicos; e itens impressionantes como é o caso do meteorito encontrado na Bahia em 1784 exposto orgulhosamente logo na entrada do circuito.
Bem, fiquem então com algumas imagens da nossa visita e, se puderem, visitem. Algumas salas não apresentam a melhor conservação, às vezes algum nicho pode estar vazio, algum elemento interativo pode não estar funcionando, mas no geral, o Museu Nacional vale uma olhada. Com todos os problemas que possa ter, o material contido nele é de incomensurável valor cientifico e cultural e deve ser conhecido.

O meteorito Bendegó, cartão de visitas do Museu.

Cabeça Dinossauro

Esqueletos de preguiça-gigante e
Tigre dente-de-sabre

Réplica de espécie que teria habitado terras brasileiras

Interessantíssimos fósseis vegetais

Roupas, utensílios e artefatos indígenas da América do Sul

Setor de civilização pré-colombiana

Utensílios cerâmicos das civilizações que habitaram a América Latina

Cabeça mumificada dos povos Jivaro,
da Amazônia Equatoriana (séc. XIX)

Técnica de mumificação sentado
com queixo apoiado sobre os joelhos

Tumba egípcia do sacerdote Hori (aprox. 1026 A.C.)

Detalhe da cena desenhada no caixão

Múmia

Sarcófago egípcio

Pedra funerária 

No detalhe, as inscrições na estela funerária

Artefatos e objetos de povos africanos

Trono e cetro de realeza africana

Belíssima peça de presa de marfim decorada

Na parte de zoologia, animais aquáticos

Os crustáceos aqui em destaque


Reprodução em tamanho real da lula-gigante

Seção de ornitologia

Na la de insetos, a belíssima instalação de borboletas

E um espaço ainda dedicado à origem do prédio,
a residência da Família Imperial, no séc. XIX.


Cly Reis


***

Museu Nacional do Rio de Janeiro / UFRJ
endereço: Quinta da Boa Vista, São Cristóvão
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ

visitação: de terça a domingo, das 10h às 17h*
segundas, de 12h às 17h*
* fechamento para entrada às 16h

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

The Smiths - "The Queen Is Dead" (1986)


O Mais Ilustre dos Trintões



"Então eu invadi o Palácio
com uma esponja e uma ferramenta enferrujada
Ela disse: ' Eu conheço você, 
Você não pode cantar.'
Eu disse: 'Isso não é nada,
devia me ouvir tocando piano.' "
trecho da letra de
"The Queen is Dead"




O ano de 2016, que está acabando, viu grandes álbuns completarem 30 anos de seu lançamento. Não à toa, 1986 foi generoso em grandes discos e não por acaso é um dos anos com maior número de obras destacadas na nossa seção ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. "Brotherhood" do New Order, "True Blue" da Madonna, "So" de Peter Gabriel", "True Stories" dos Talking Heads, "Album" do PIL, aqui no Brasil o idolatrado "Dois" da Legião Urbana e o aclamado "Cabeça Dinossauro" dos Titãs são apenas alguns dos grandes registros fonográficos lançados naquele afortunado ano para a música.
Mas de todos estes grandes álbuns que completaramm trinta anos neste ano que está se despedindo talvez o mais importante e significativo seja "The Queen Is Dead" do The Smiths, disco frequentemente apontado como o melhor da década de '80 e não raro em listas de melhores de todos os tempos, até mesmo ocupando o topo contra obras respeitadíssimas como "Revolver" dos Beatles e o disco da banana do Velvet Underground, por exemplo.
Depois de um disco de estreia elogiadíssimo, reconhecido também com frequência como melhor debut em álbum de uma banda; de um segundo trabalho que confirmava todas as virtudes e dava alguns passos adiante do que fora apresentado inicialmente, o quarteto de Manchester chegava ao terceiro álbum de estúdio com completo domínio de suas habilidades, possibilidades e pretensões obtendo por conta disso um resultado maduro e coeso.
Em "the Queen Is Dead" aparecem pelo menos três dos maiores sucessos da banda e que se tornariam quase hinos da banda. "Bigmouth Strikes Again" canção na qual Morrissey, no auge de sua habilidade como letrista, cinicamente "se defende" das sugestões que "teria feito" para que se quebrasse a cara da então primeira-ministra britânica Margareth Tatcher. Nesta canção encontra-se alguns dos versos mais geniais e bem sacados de Morrissey, criando uma imagem martirizante de inquisição e aproximando-a temporalmente de sua geração, fazendo-a assim identificar-se com o com suposta injustiça do julgamento ao qual estaria sendo submetido: "And now I know how Joan Of Arc felt/ As the flames rose to heir roman nose and her walkman started to melt" ("E agora eu sei como Joana d'Arc se sentiu/ Enquanto as chamas subiam até seu nariz romano e seu walkman começava a derreter") . Outro dos hinos smithianos que o álbum traz é a suplicante "There's a Light That Never Goes Out", canção pop perfeita dotada de um desespero apaixonado comovente possuidora de outro daqueles versos definitivos de Morrissey: "And if a double-decker bus crashes into us/ To die by your side/ Is such a heavenly way to die" ("E se um ônibus de dois andares colidisse contra nós/ Morrer ao teu lado/ Que maneira divina de morrer"). De arrepiar! O outro grande hit do álbum e da carreira da banda é "The Boy With The Thorn In His Side", possivelmente, em termos gerais, a combinação mais perfeita da parceria Morrissey/Marr, numa das melodias mais sedutoramente inspiradas do guitarrista combinada com uma interpretação vocal irretocável do cantor tornando-se  tão emblemática que poderia ser considerada praticamente uma identidade auditiva doa banda.
Mas ao contrário do que pode-se pensar "The Queen Is Dead " não é um clássico apenas pelo fato de ter gerado grandes sucessos. Cada uma das outras sete faixas, embora não tenham atingido paradas, grandes execuções e vendas, tem seu valor que, diga-se de passagem, não é nada pequeno.
A canção que abre o disco e com ele compartilha o nome, "The Queen Is Dead", é uma das mais pungentes e viscerais da banda em um dos poucos exemplos de guitarradas rascantes e violentas de Johnny Marr servindo como uma inquieta esteira de fogo para a letra fulminante de Morrissey num ataque ridicularizador à família real britânica.
"Frankly Mr. Shanky" é graciosa e doce sonoramente mas ácida em sua letra; "Cemetery Gates", com seu violão de melodia envolvente é extremamente bem humorada; "Never Had No One Ever", possivelmente a menos boa do disco, o que não significa que seja ruim, é intensa e carrega aquela típica melancolia e pessimismo de Morrissey; "Vicar In a Tutu", é um gostoso rackabilly novamente repleto do humor mórbido característico de seu letrista. Particularmente destaco também "I Know It's Over", uma das minha preferidas da banda. Uma balada carente, angustiada, desesperada, de interpretação comovente e intensidade crescente que, desde que ouvi pela primeira vez até hoje, me leva às lágrimas. O pedido de "colinho" "Oh, mother I Can feel the soil falling over my head" (Oh, mãe, eu posso sentir o chão caindo sobre minha cabeça") é pra derreter qualquer um.
Depois de tudo isso, a despretensiosa "Some Girls Are Bigger Than Others" tem o charme de surgir em um fade-in, começar, parecer sumir, desvanecer-se num fade-out e voltar para, numa letra aparentemente banal fechar em grande estilo o disco.
"The Queen Is Dead" foi o disco que colocou o The Smiths definitivamente num patamar superior. Se no início a banda chamou atenção por fazer um rock limpo e honesto em meio à selva de sintetizadores que habitavam o mundo pop, se depois se afirmaram enquanto banda e consolidaram um linha, a partir daquele disco eram, sim, definitivamente reconhecidos como uma das grandes bandas dos últimos tempos. Se o disco frequenta listas de melhores de todos os tempos, o nome da banda não faz menos e volta e meia é colocado à frente de peixes grandes do rock em respeitáveis listas de todo tipo de publicação. Sim, os anos 80 nos deram grandes obras, o ano de 1986, em especial, alguns dos mais marcantes e especiais, mas por toda essa reverência que lhe é atribuida, por sua qualidade, por toda a idolatria e aura mítica que envolve esta obra, "The Queen Is Dead" pode ser considerado, entre os discos "nascidos" em 86, entre os que apagam trinta velinhas este ano, o mais ilustre aniversariante.
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FAIXAS:

  1. "The Queen is Dead"
  2. "Frankly, Mr. Shankly" 
  3. "I Know It's Over" 
  4. "Never Had No One Ever"
  5. "Cemetry Gates" 
  6. "Bigmouth Strikes Again" 
  7. "The Boy with the Thorn in His Side" 
  8. "Vicar in a Tutu"
  9. "There Is a Light That Never Goes Out" 
  10. "Some Girls Are Bigger Than Others"


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Ouça:


Cly Reis

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Talking Heads - "Fear of Music (1979)


“Precisa perder o medo da música.”
Arnaldo Antunes



O Talking Heads sempre foi das minhas bandas preferidas. Todas as fases pelas quais o grupo passou são dignas de registro na história da música pop, desde seu primórdio punk até a derradeira fase world music. Aliás, para mim, um preceito para um grupo ser considerado importante (fora algumas exceções) é o de produzir, pelo menos, dois ou três grandes discos. Os Heads têm uns cinco: “Little Creatures” (1985), “Remain in Light” (1980) e “True Stories” (1986) são alguns. Mas antes destes, no finalzinho dos anos 70, David Byrne (guitarras, vocal), Chris Frantz (bateria), Tina Weymouth (baixo) e Jerry Harrison (teclados e guitarra) já tinham concebido sua obra-prima: “Fear of Music”.
Segundo trabalho da trilogia assinada pela banda ao lado do genial produtor inglês Brian Eno, “Fear of Music” veio com o desafio de superar o excelente “More Songs About Buildinds and Food”, de 1978, primeiro da parceria. E conseguiu. Ápice da criatividade de Byrne e Cia., o disco é resultado da releitura apurada e madura do punk rock, cena da qual a turma provinha, e das tendências da época, como a new wave, o reggae, a disco e as influências folclóricas. E tudo basicamente baixo-guitarra-bateria, com incursões de teclados e percussões muito mais para gerar climas ou completar a concepção do arranjo. Ouvindo-se “Fear” hoje é até desanimador ver bandas consideradas “do momento” soarem tão parecidas e, pior, não conseguirem acrescentar nada além do que os Heads ou grupos como Gang of Four e Polyrock já fizeram.
Mas voltando ao disco, a ótima capa, seca, parecendo uma caixa de metal preta com relevos, intui que ali dentro se encontrará um conteúdo corrosivo e desafiador. Como que provocando o ouvinte: ‘quem tem medo de abrir o invólucro’? A banda brasileira Titãs, na época de sua melhor fase, meados dos anos 80, foi uma das que enfrentaram esse temor e se inspiraram neste trabalho dos Talking Heads. Uma de suas músicas, "Medo" , do álbum “Ô Blésq Blom”, de 1989, traz no seu cerne a ideia da quebra dos preconceitos e do enfrentamento das limitações típica do punk, seja na sociedade, na arte ou na política. No cenário internacional, vários outros, como Prince, Deee Lite e Beck, também beberam na fonte do Talking Heads.
Contribui muito para o resultado final o dedo inventivo e autoral de Eno. Assim como fizera com o U2 em “Zooropa” (1996) ou com David Bowie na trilogia ““Low-Heroes-Lodger” (1977-78-79), Eno funciona mais do que como um produtor: além cantar, tocar e co-assinar composições, ele dá cores diferenciadas às músicas na mesa de mixagem, tratando-as especialmente como um microcosmo. Por isso, arrisco-me a também lhe creditar este disco. As técnicas de estúdio que Eno foi acumulando desde seu moderníssimo grupo Roxy Music, no inicio dos anos 70, passando pelos vários discos solo e produções a trabalhos de parceiros parecem ter sido todas colocadas em prática em “Fear”. Isso aparece em truques de mesa de som, afinação diferente de instrumentos ou maneiras criativas de apresentar uma faixa. Um exemplo é “Cities”, que demora a subir o som para começar e é cheia de barulhos esquisitos soltos no seu decorrer, além do vocal quase de garagem, inclusive com propositais falhas na captação do microfone, criando uma atmosfera própria. Em outra, “Mind”, a voz oscilante e esganiçada de Byrne, de repente, se mistura a outros sons. Pequenos detalhes muito bem empregados que constroem um verdadeiro manual de como produzir bem um disco de rock. Tudo muito surpreendente e orgânico.
Neste disco, os Talking Heads assumem de vez a sua postura particular dentro da cena punk. Eles sempre tiveram, de fato, cara de mais comportados do que seus contemporâneos brigões Sex Pistols ou Dead Boys, e suas músicas geralmente fugiam do padrão “1-2-3-4” tosco de um Ramones ou New York Dolls. “Mind”, “Animals” e “Cities” mostram bem isso: ritmação “torta”, melodias em contraponto, frases de guitarras que funcionam como percussão. Uma série de esquisitices que, da maneira como fazem, dá muito certo. Aliás, esta é a forma como eles se mostram criativos: era um grupo limitado tecnicamente, mas cheio de ideias na cabeça e disposto a evoluir musicalmente.
“Fear” começa com a conceitual “I Zimbra”, um pop “africanístico” com “guitarras percussivas” cantado em coro num dialeto exótico. Diferente de tudo que tinham feito até então, “I Zimbra” lança luzes ao que viria no álbum seguinte do conjunto, “Remain in Light”, caracterizado por este tipo de sonoridade world music. “Air” é outra prova da maturidade musical da banda e do acerto do casamento com Brian Eno. A linha de baixo marcada no mesmo compasso da bateria, acompanhada pelo coro feminino e da base minimalista de guitarra, são valorizadas ao máximo pelo produtor. De uma canção simples, Eno adiciona ideias que dimensionam exatamente o que há de melhor na melodia: a construção quebrada, o baixo grave e o vocal solto e brincalhão. A voz de Byrne, aqui, como em algumas outras do disco, ganha um dos “ensinamentos” de Eno assimilados em sua temporada com David Bowie. Nos momentos em que Byrne solta o gogó e o som se expande além da conta no microfone, um outro microfone dentro do estúdio é acionado, captando este “excedente” e dando uma sensação emocionante de explosão da voz.
Uma das melhores de “Fear” é “Memories Can’t Wait”. Não passa de mais um punk rock rude, como os que os Heads faziam nos seus primórdios de CBGB. Mas o ouvido apurado da galera criou, com elementos simples e criativos, uma obra-prima. Ao contrário de outras onde o baixo ou a bateria prevalecem, aqui, o volume desses instrumentos vai lá embaixo para dar lugar às guitarras. Mas não são simples guitarras: efeitos de pedal e de estúdio dão um clima psicodélico e ruidoso à musica, o que é completado pela voz cheia de ecos e alterações de frequência e volume. Matadora!
Outra maravilha é “Electric Guitar”. Nela, todos os sons parecem brigar entre si. Se noutras faixas o baixo e a bateria são amenizados, aqui eles estouram a caixa. Alto, o som distorcido do baixo de Tina dá a impressão de ser um cello. Na bateria, a caixa e os chipôs se estapeiam para ver quem ocupa mais espaço. E o vocal, ora propositalmente estourado, ora visivelmente mal modulado, é um show à parte. Não sei se deu para perceber na descrição, mas o que menos aparece em “Electric Guitar” é, justamente, a guitarra elétrica, que, já devidamente homenageada, restringe-se a uma leve base e a, no máximo, uma frase que dialoga com a voz no refrão. Tudo sob um ruído agudo (uma vibração de pedal da referida guitarra) que vai e volta, sobe e desce, e que se repete no decorrer de toda a música até, no fim, depois de todos os instrumentos se calarem, voltar para desfechar em alto estilo.
Todo grande disco começa ou termina com uma grande música e, no caso de “Fear...”, é no final que está a “cereja do bolo”. “Drugs” é um primor, com muitos méritos, novamente, a Eno. Para quem conhece um pouco de composição musical, dá para perceber que ela foi escrita no violão em cima de alguns acordes básicos. Mas o que foi parar no disco é outra coisa, muito mais rico e complexo, só usando criatividade e técnica. A começar, a melodia é “distribuída” a vários instrumentos, sem ser tocada continuamente por apenas um deles. O baixo pontuado, as batidas soltas de bateria, as várias texturas de teclado, as vozes, as incursões de percussão, os monossílabos de guitarra: todos ajudam a compassar esta espécie de “quebra-cabeças minimalista”. Os Titãs, anos antes de “Ô Blésq Blom” – e por influência dos “antenados” Arnaldo Antunes, ainda integrante da banda, e do produtor do grupo, o ex-Mutantes Liminha –, já tinham se valido dos Heads para conceber outra música: “O Quê?”, do LP "Cabeça Dinossauro" (1986). Igualmente a “Drugs”, “O Quê?” teve como ponto de partida uma base de violão que, na hora do arranjo, foi ganhando outros elementos até se tornar um dançante “funk concretista”. E como em “Fear of Music”, este famoso hit da banda brasileira também desfecha o seu disco com “chave de ouro”. Coisa de álbum clássico.
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Além da trilogia “More Songs-Fear-Remain”, a parceria Byrne-Eno rendeu ainda um quarto trabalho: o instrumental “My Life In The Bush Of Ghost”, de 1981, assinado só pela dupla, que radicaliza a sonoridade étnico-folclórica e os experimentos de estúdio, como samples e colagens. Os dois voltariam a gravar juntos em 2008 o mais pop, porém também muito bom, “Everything That Happens Will Happen Today”.


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FAIXAS:
1.I Zimbra
2.Mind
3.Paper
4.Cities
5.Life During Wartime
6.Memories Can’t Wait
7.Air
8.Heaven
9.Animals
10.Electric Guitar
11.Drugs

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Ouça

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Elza Soares - "A Mulher do Fim do Mundo" (2015)



"Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou, eu vou,
eu vou cantar
Me deixem cantar até o fim."
da letra de
"A Mulher do Fim do Mundo"




Devo admitir que fui com um certo ceticismo para ouvir "A Mulher do Fim do Mundo", disco da veterana Elza Soares, desconfiado de que grande parte da badalação em torno dele viesse a dever-se muito mais à simpatia das "minorias" ou da parcela da sociedade engajada por assuntos que o disco aborda e causas que, direta ou indiretamente, defende como igualdade racial, feminismo, justiça social, etc., do que propriamente por suas suas qualidades musicais. Para minha felicidade o disco não limita-se a ser um grito dos oprimidos. Aparatada por um time de jovens músicos, compositores e produtores, antenados com o momento musical, com os novos recursos e possibilidades, a veterana Elza Soares tem a oportunidade de ter seu trabalho atualizado e por conta disso revalorizado através das inovações propostas por essa impetuosa retaguarda técnica. Bases e batidas pré-gravadas, guitarras, distorções, incorporação de outras tendências musicais como rap e o funk são algumas das novidades que vemos no trabalho de Elza, impulsionadas, é claro, pelo talentoso grupo de músicos já de bom trânsito e reconhecimento pela cena musical paulistana nos últimos anos.
Mas antes que digam que estou dando todos os méritos para a equipe técnica e inventem outra polêmica, como se já não bastasse da famosa discussão sobre o fato do álbum ter sido todo concebido e executado por homens brancos,  é importante que se saliente que "A Mulher do Fim do Mundo" é um disco DE Elza Soares, feito PARA Elza Soares como muitos discos são feitos para outros intérpretes por diversos compositores, independente de seu gênero, raça ou condição social, e ELA é a estrela maior do disco. Os temas, as letras, a obra foi entregue a ela, personificada nela porque, possivelmente, no Brasil, poucas artistas representariam tão bem a imagem de luta de uma mulher negra de origem humilde julgada pela sociedade como ela. E nada mais autêntico do que entregar esse repertório a uma mulher que, mesmo antes disse projeto, ao longo de sua carreira sempre fez questão de mostrar estas realidades fosse nos repertórios escolhidos, fosse em entrevistas.
Provando que sabem que Elza é quem tem que brilhar e que não tem a intenção de reivindicar a obra, os "garotos" fazem questão de enfatizar isso logo na primeira faixa: o que surge primeiro é a voz. Apenas a voz. Nada mais. Numa emocionante interpretação à capela de "Coração do Mar", poema de Oswald de Andrade, musicado por José Miguel Wisnik, Elza brilha solo mostrando que seu "instrumento de trabalho" permanece como uma marca registrada na música brasileira.
Imediatamente após a introdução vocal, a faixa que dá nome ao disco surge solene e melancólica com cordas chorosas logo integradas a um riff minimalista que não tarda a explodir num samba potente como um terremoto, um cataclismo, um apocalipse. É o fim do mundo e Elza está lá. No meio dele, no olho do furacão. Cantando. Com aquele rasgo de voz característico dela, como se fosse um trompete, ao melhor estilo Louis Armstrong, ela anuncia, inapelável, "Eu vou cantar até o fim". E, amigos, tal é a força, que a partir daquele momento ficamos com a certeza de que nada irá pará-la.
E pra confirmar essa volúpia incontida, a excelente "Maria da Vila Matilde", um "samba-de-breque" cheio de elementos eletrônicos, guitarras e metais, vem dando o papo-reto sobre violência contra a mulher botando o dedo na cara do machão covarde e avisando com todas as letras "Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim". É a afirmação da postura da mulher do novo século, da mulher do fim do mundo.
Em "Pra Fuder" a linguagem que num primeiro momento pode parecer desnecessária, tipo criança boca-suja, meio Dercy Gonçalves nos últimos anos de vida, mostra-se imperativa num dos refrões mais intensos dos escritos no Brasil desde as sentenças primais de "Cabeça Dinossauro" dos Titãs.
"Luz Vermelha" é visceral, agressiva, caótica e traz um refrão embalado por uma espécie de drum'n bass sambado; a simpática "Firmeza?!" reafirma a contemporaneidade de linguagem, não somente sonora mas também verbal, proposta pelos compositores e produtores, num amistoso diálogo entre dois "parças" na "quebrada" onde vivem; a mórbida "Dança" talvez seja a que mais se aproxima de um samba canção tradicional; e "Canal" com uma poesia sutil aborda a questão da falta d'água com destaque para o brilhante trabalho de percussão.
"Benedita" (ou seria Benedito?), outro dos granes destaques do álbum, de estrutura quebrada e imprevisível, acompanha as desventuras de um transexual pelo submundo e seus recursos para sobreviver naquele meio selvagem e implacável ("Ela leva o cartucho na teta/ ela abre a navalha na boca") .Uma jornada underground comparável às mais sujas histórias de Fausto Fawcett com suas fantásticas personagens malditas como Kátia Flávia, a amazona loura terrorista, ou a falsa-santa traficante de armas Judith Raquel: ou mais realisticamente, com o personagem de mesmo nome criado por Itamar Assumpção em "Beleléu", mais conhecido como Nêgo Dito.
Sob acompanhamento de cordas "Solto" encaminha com melancolia o final do disco e, assim como começou ele termina, conduzido apenas pela voz de Elza na belíssima "Comigo". A voz está um pouco envelhecida, deve-se dizer a verdade, mas assim como Billie Holliday em "Lady in Satin", que com a voz hesitante e débil ainda conseguira gerar uma obra-prima, Elza Soares talvez tenha conseguido finalmente, em tempo, a sua.
Um disco que já nasceu histórico e que já coloca-se de imediato entre os grandes álbuns da música brasileira. Um projeto musicalmente ousado e que torna-se urgente e essencial no presente contexto político, social e humano por suas temáticas e abordagens. "A Mulher do Fim do Mundo" é o disco da nova mulher, de uma nova atitude, de um novo som, o disco de um novo século e, oxalá, quem sabe não o disco do fim do mundo, mas de um novo mundo.
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FAIXAS:
  1. "Coração Do Mar"
  2. "Mulher Do Fim Do Mundo"
  3. "Maria Da Vila Matilde"
  4. "Luz Vermelha"
  5. "Pra Fuder"
  6. "Benedita"
  7. "Firmeza"
  8. "Dança"
  9. "Canal"
  10. "Solto"
  11. "Comigo"

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OUÇA:
Elza Soares A Mulher do Fim do Mundo



Cly Reis