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terça-feira, 25 de agosto de 2015

"Adeus à Linguagem", de Jean-Luc Godard (2015)



"Aqueles que não têm imaginação
buscam refúgio na realidade."
frase que aparece na tela
no início do filme



Um dos poucos diretores que me fazem correr para o cinema para assistir a seus filmes é Jean-Luc Godard, talvez por ser um dos últimos vivo de uma turma que mudou o cinema. Fellini já foi, Truffaut já foi, Hitchcock já foi, Kubrick foi, Pasolini, Bergman, Tarkovski, Glauber... Quem está aí? Scorsese, Copolla, Saura, Allen, Wenders...talvez Trier, mais atualmente. Mas Godard é um daqueles poucos que se confunde com a história do cinema, uma dos que criaram uma escola, um dos que estabeleceram uma nova linguagem. E é a propósito de linguagem que trata seu novo filme, aliás, é, em tese, uma despedida dela. "Adeus à  Linguagem" é, como vem sendo seu cinema nos últimos anos, muito mais um exercício anaítico, estilistico, filosófico e visual do que um filme convencional com trama, cronologia, personagens, cenários, etc.
A natureza, um dos elementos investigados por
Godard em seu ensaio cinematográfico
tem belíssimas imagens proporcionadas pelo 3D
Exatamente por se fixar na LINGUAGEM, Godard explora e extrapola todas as suas possibilidades, não importando-se, mesmo, de causar desconforto no espectador com imagens desfocadas, ruídos, cortes abruptos, diálogos incompletos e incoerentes, entendendo que tais recursos por si só já fazem parte de uma indução de sentidos e portanto ao ser apresentada e interpretada, já passa a ser linguagem. Godard examina  LINGUAGEM de forma absolutamente ampla, destrincha a palavra e todos seus significados para, no fim das contas mostrar o quão deficiente está a comunicação das pessoas, as relações humanas. Examina a linguagem do corpo, da filosofia, da cor, da sensação, da estranheza, da natureza, das relações humanas, do silêncio e tanto lhe interessa a amplitude do tema que, mesmo a breve trama centrando-se em um casal que discute a relação àquela moda francesa t´pica da nouvelle vague, o personagem principal, se é que podemos chamar assim, a aprtir de certo momento passa a ser um cachorro, que de certa forma simboliza a pureza da linguagem, a perfeita comunicação através da não-comunicação.
Roxy, o cão do próprio Godard,
é, de certa forma,
o protagonista do filme.
Se já corro para ver um Godard no cinema normalmente, este em 3D, me fez ir mais rápido ainda ao cinema, uma vez que produções alternativas assim não duram muito em grandes salas com qualidade e tecnologia para exibição deste recurso, até porque os donos do negócio estão mais é interessados em tirar logo o chato do filme europeu que vai ser visto por meia dúzia de gatos pingados pra lotar a casa com algum Vingadores ou Senhor dos Aneis da vida. Na verdade, perdi a paciência com o 3D rapidamente. Vi duas ou três coisas, uma só que valera a pena, e de resto pareceu-me que não compensava visualmente para a dor de cabeça a incômodo que me causava a utilização daqueles óculos. Mas, enfim, tinha curiosidade para ver como um cineasta bom, com ideias, viesse a utilizar o recurso.
Os tradicionais letreiros do diretor,
lançados na tela, também servem-se 
produtivamente do 3D.
Sim, já tinha visto o Hugo Cabret do Scorsese mas devo admitir que me decepcionei um pouco. Todo mundo ficou muito fascinado e tudo mais, mas para mim pareceu meramente um grande carnaval estético com uma pitada poética cinematográfica que não foi suficiente para torná-lo um bom filme, mas isso já é outra história. Quanto a Godard, acho que utilizou a LINGUAGEM 3D muito bem no que se propunha e o resultado, para quem já cansou de ver só explosões saltando da tela, é interessante e válido. Desfoca o 3D, o duplica de forma genial, ironiza o próprio título utilizando um  "Ah", num plano avançado e um "Dieux" ao fundo naqueles seus tradicionais letreiros na tela, salienta um móvel, uma mão, um elemento qualquer saltando da tela, brinca com as palavras, com a comunicação, com o visual, com a linguagem. O que posso dizer é que a tecnologia colaborou com a LINGUAGEM do diretor que tem sua identidade tão consolidada e sua linha de discussão já tão estabelecida, que mesmo que quisesse dar adeus a ela, não conseguiria. Bem-vindo à nova linguagem, Godard.




Cly Reis

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"Film Socialisme", de Jean-Luc Godard (2010)



Não concordo que "Film Socialisme" seja uma reinvenção de Jean-Luc Godard como li de alguns críticos. Frequentemente se vê na obra do diretor os mesmos elementos, a mesma condução, a mesma dialética, os mesmos recursos. Não precisamos alardear uma 'reinvenção' para justificar o alto nível e qualidade da última obra do diretor. Que ela é grandiosa, é, mas o é como muitas outras dele mesmo. Com diferenças, outros meios, outros olhos, mas ainda assim um Godard autêntico.  O que considero louvável neste, é ver JLG a estas alturas, aos 80 anos, ainda incomodado, incomodando e em grande forma, com uma saudável vitalidade artística.
Com um navio, num cruzeiro marítimo, sobre a água (ou seja, sem chão) o cara consegue conter o mundo inteiro e destruir fronteiras; e nisso, utilizando-se das mais diversas formas e recursos, constrói um manifesto artístico que abrange dinheiro, política, religião, etnias, ideologias. Depois, com uma família, com quatro pessoas numa propriedade semi-rural, disseca a história política da França, sua política desde suas origens até os dias de hoje unindo (ou desunindo) quatro gerações de cidadãos franceses e suas ideias. Só que em meio a tudo isso , entre um "capítulo" e outro, entre uma "viagem" e outra, deixa perguntas no ar: no que se transformou sua França?, no que se tranformou a Europa?, no que nos transformamos?
"Film Socialisme" é um turbilhão de imagens e sons que vão compondo uma sinfonia cinematográfica que, de maneira aparentemente desordenada, mas sutilmente coordenada, vai botando o dedo nas feridas mais fundas da sociedade contemporânea. Entre cortes abruptos, diálogos inacabados, imagens desfocadas, barulhos ensurdecedores, Godard vai pontuando os temas e conduzindo aquele "caos" magistralmente como só um grande mestre do cinema poderia fazer. E, a propósito disso, no caso de Godard, quando se fala em DIRIGIR, pode-se tomar o termo literalmente, pois através de suas frases "jogadas" na tela intercalando partes, episódios, momentos, ele vai nos conduzindo e ensinando a ver seu filme.
Mestre! Mestre!
Fazia tempo que não via um Godard e  felizmente este reencontro foi para mim extremamente compensador.


Cly Reis

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Cinema Marginal #2 - "O Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla (1968)




Muito já se falou sobre esse filme, mas muito ainda há a se falar sobre ele. O primeiro longa do jovem Rogério Sganzerla que na época tinha apenas 22 anos, mas que foi considerado o melhor filme do "Cinema Marginal" é um dos melhores do cinema nacional. Debochado e extremamente crítico, assim é "O Bandido da Luz Vermelha".
Marginal paulista conhecido como Bandido da Luz Vermelha (Paulo Villaça) coloca a população em clima de medo e desafia a polícia ao cometer os crimes como estupros a assassinatos. Até que ele conhece a provocante Janete Jane, famosa em toda a Boca do Lixo, por quem se apaixona.
Janete Jane e o "Jorginho", se é que esse é seu nome verdadeiro.
Melhor chamar de Bandido já que ele avacalha e esculhamba o filme todo.
Se você apenas tiver passado os olhos rapidamente pelo filme ou simplesmente o tenha assistido quando era muito novo, talvez tenha ficado com a impressão de que ele é uma grande bagunça. Pois bem, fique calmo: você esta certo. Apesar de ser um filme para nos fazer pensar, "O Bandido da Luz Vermelha" não é lento. É dinâmico, seus cortes são frenéticos, há vozes off dos narradores, ora radialistas ora o próprio bandido, frases soltas são atiradas parecendo não terem sentido algum como a receita de musse de maracujá. Tudo isso, aliado à sua estética suja, forma uma enorme confusão, mas uma confusão no bom sentido. "Confusão" esta que é reforçada ainda mais pela ausência de uma definição de temática, não se enquadrando em nenhum gênero, policial, romance, documentário, filme-protesto ou filme-denúncia. É simplesmente "um filme de cinema".
Uma sociedade tão alienada no seu mudinho, que encontra o Bandido,
não percebe e ainda dá receita de musse de maracujá.
Apesar das ótimas atuações temos que admitir que as cenas de tiro não ficaram boas, não forma bem encenadas e claramente podemos ver atores atirando para cima e outro caindo. Pode ter sido algo proposital, claro que pode, mas chega a ser cômico. Mas mesmo com seus problemas, o filme vence as barreiras do tempo e contínua fazendo sentido até os dias atuais. Apesar do titulo, não fica claro se realmente estamos vendo o bandido da luz vermelha. O próprio "bandido" fala logo no inicio "Eu sou um dos Bandidos da Luz Vermelha", em seguida um dos investigadores fala que o bandido já esta preso e essa dualidade está presente em vários aspectos do filme. Nem o próprio personagem sabe quem realmente ele é, repetindo inúmeras vezes ao longo do filme "Quem sou eu?". O figurino também ahjuda a reforçar essa dúvida acerca do personagem  e sua identidade uma vez que o bandido nunca repete o figurino mesmo nos cortes rápidos. Ou coloca um chapéu, uma luva, de uma cena para outra mas está sempre mudando. Não tem uma personalidade definida, sua cabeça é uma bagunça assim como sua mala, da qual se desfaz, tirando tudo de dentro, antes de ir para seu ato final.
As criticas não ficam apenas no personagem central mas se espalham por todo o mundo que o cerca, passndo a pelos meios de comunicação totalmente sensacionalistas que, no filme, soltam inúmeras notícias sem ter a veracidade comprovada, sendo porém tudo afirmado como se fosse verdade; se estendendo aos políticos na forma do cômico personagem J. B Silva "Ministro não, secretário", candidato a presidência
Esse letreiro funciona muito bem no filme.
Sem dúvida "O Bandido da Luz Vermelha" é um grande clássico do nosso cinema. Consegue unir elementos de "Acossado" de Godard, especialmente na parte final do filme apesar de todo ele ser muito Godard; com um toque de "Cidadão Kane", do qual o longa é um dos filmes filhos e cuja referência ao diretor Orson Welles não para aí uma vez que temos até disco voadores (A referência a Welles, pegou? Bem bolado, né?); além de um pouco de "Cinema Novo" ou muito de Glauber Rocha. "O Bandido..." tem uma pegada bem urbana real omo os filmes do "Cinema Novo". Existem inclusive diversos textos que comparam o filme à obra "Deus e o Diabo na Terra do Sol" de Glauber. Não se engane se acha que assim como fez Godard e Welles, Sganzerla quis homenagear Glauber. Neste caso  estaria mais para uma provocação do diretor que coloca Helena Ignez no papel da prostituta Janete Jane, personagem que acaba morta em uma festa e logosua morte segue-se uma sequência de fogos de artifício. A provocação? Ignez era então ex-mulher de Glauber na época. Sim ele matou a mulher de Glauber e ainda festejou o fato.
"O Bandido da Luz Vermelha" consegue gerar diversas interpretações e eu poderia escrever um texto enorme apenas sobre elas que mesmo assim não conseguiria chegar perto da força e profundidade que tem o filme devido às suas diversas alegorias. Se tiver a oportunidade não deixe de assistir. Vale muito por sua linguagem, seu modo de filmar altamente artístico e inovador, ao mesmo tempo que é apenas um "simples" filme policial, um "faroeste do terceiro mundo". Assim como os tiros do Bandido, o filme atira para todos os lados, e de alguma forma ele vai acertar você.



segunda-feira, 22 de março de 2021

Museu do Louvre - Paris /França

 




Quando penso no Museu do Louvre, curiosamente, o que me vem à cabeça, imediatamente, não é a visita que fiz ao legendário santuário das artes e da cultura do mundo, em 2009, mas sim, em primeiro lugar, a cena da aposta dos três protagonistas de "Um Bando À Parte, de Jean-Luc Godard, de percorrer a extensão do museu, correndo, em cinco minutos. Aí, sim, depois, por extensão, me vem a minha própria incursão e, a propósito, lembro que, mesmo passando, praticamente, o dia todo naquele prédio, não consegui ver tudo. Tem muita coisa incrível pra ver e se admirar. Tudo é fascinante, a começar pela fachada barroca, sua imponência, o acesso pela polêmica pirâmide de vidro no pátio central, passando por cada corredor, entrando em cada salão... Aí o visitante fica pasmo, maravilhado, diante de um Delacroix, de um Vermeer, das esculturas gregas, mas acorda da anestesia visual e sensorial e lembra que tem mais toda uma ala oposta para ver, e o setor egípcio, e os objetos decorativos, e ala de arte oriental e, não está nem na metade. E aí corre, corre. Não como Arthur, Franz e Odile, no filme de Godard, mas acelera aquela apreciação mais do que gostaria.

"Um Bando à Parte" - cena do Louvre


Foi o meu caso. Chegou um momento em que, vendo o dia passar, a hora do fechamento se aproximar, e o cansaço já pegando, o que restou foi apressar o passo e, em alguns casos meio que simplesmente passar os olhos por cima de coisas que gostaria de ter dedicado maior atenção. Devo admitir que o setor islâmico e o chinês eu só vi de passagem, caminhando, mas... fazer o quê? Além do horário de funcionamento do museu, de mais a mais, nossa companhia e anfitriã no país, nos esperava no lado de fora com um filho pequeno cansado daquela turnê de que durara quase um dia inteiro. Tínhamos que ir.

Mas de um modo geral, inegavelmente, a visita, por si só, já valera a pena. quem não gostaria de visitar um dos maiores e mais famosos museus do mundo? Sem falar na oportunidade única, ainda que muito breve e disputada, de ver, de perto um dos quadros mais famosos da pintura de todos os tempos: a Monalisa, de Leonardo da Vinci, mesmo que só conseguindo ficar perto por alguns poucos segundos e mesmo assim, não tão PERTO assim, por conta da quantidade de gente em volta da icônica obra de arte.

É, com aquela gente toda, acho que, nos dias de hoje, os personagens de Godard teriam, certamente, uma enorme dificuldade, de fazer aquele percurso correndo.

O acesso ao museu e bilheterias, pela parte inferior, 
sob a pirâmide de vidro do pátio central.

Ainda no subsolo, A Pirâmide Invertida,
mencionada com destaque no romance "O Código Da Vinci"

Já no interior, o incrível acervo de pinturas,
em sua maioria, do Renascentismo e do Barroco.

A célebre Mona Lisa.

Este seu blogueiro, entre outros tantos 
admiradores e turistas, tentando posar próximo 
à obra-prima de Da Vinci. 


Admirando as pinturas do museu.

Na ala egípcia.

A clássica Vênus de Milo,
na ala grega do Louvre.

A cabeça de João Batista,
em mais uma obre impressionante do acervo de esculturas.


A estátua dos Quatro Cativos, no amplo subsolo Marlí

Mais uma deste intrépido blogueiro, 
desta vez em frente ao museu e sua imponente pirâmide de vidro.





Cly Reis


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

20 filmes essenciais do cinema francês



Resnais, cineasta com
mais de um título na lista.
Uma das missões de minha profissão, a de jornalista, é a de, a partir de meu filtro capacitado e abalizado, informar as pessoas daquilo que não lhes está evidente, ajudando-as a se elucidar e formar opinião. Quando se trata de assuntos envolvendo cultura e arte, não é diferente. Levar-lhes o “não óbvio”, aquilo que não conhecem, pois o que já conhecem não precisa, certo? Não exatamente. Há tanta confusão de informação no ar (e nas redes) que o “óbvio”, por desconhecimento ou falta de critério, mistura-se com o irrelevante ou passa até a ser relegado. Os melhores filmes franceses de todos os tempos, por exemplo: numa recente lista, vi apontados títulos queridinhos como “O Fabuloso Destino de Amélie Poulin” e “Intocáveis” como sendo indispensáveis, enquanto que não figuraram nada de Jean Vigo ou Michel Carné. Ora, convenhamos! E olha que não estou nem falando de obras de cineastas menos conhecidos, mas igualmente merecedores, como Sacha Guitry ou Julien Duvivier – mas aí, seria exigir demais.

O cinema francês é um dos mais ricos e referenciais da cinematografia mundial, desde os irmãos Lumière até as escolas e movimentos que este promoveu ao longo do tempo, como o Realismo Poético, o Cinema Vérité e a revolucionária Nouvelle Vague. Nada contra os bons “Intocáveis” ou “Amélie Poulin” – este último, aliás, se tivesse que escolher um de Jeunet, preferiria “Delicatessen” ou “Ladrão de Sonhos”. Porém, basta conhecer um pouco da história do cinema do país de Victor Hugo para enxergar o rico e numeroso universo de produções relevantes para além desses sucessos recentes. O pioneirismo, as inovações estilísticas, as contribuições técnicas e teóricas se deram em vários momentos da história da sétima arte. Definitivamente, o cinema francês não deve ser reduzido a uma amostra que nem de longe reproduza seu tamanho e importância.

Por conta disso, elaborei uma lista de 20 títulos realmente essenciais para se compreender e admirar o cinema francês. Óbvios para mim, mas a quem não conhece ou se enreda em avaliações mal ajuizadas, talvez não. Afora a criteriosa tarefa de selecionar os mais relevantes entre tantos títulos ótimos, elencá-los foi delicioso. Estão aqui mencionados, sem ordem de preferência, clássicos que determinaram épocas, obras-primas consagradas do cinema mundial e filmes que cumpriram papéis além do próprio cinema: tornaram-se ícones da arte e da cultura do século XX, como “Acossado”, “A Regra do Jogo” ou “A Nós a Liberdade. A ideia foi a de constar um de cada grande realizador, embora alguns (Truffaut e Resnais, por exemplo) inevitavelmente haja mais tendo em vista a indispensabilidade das realizações citadas. Também, dentro da lógica de informar a partir de meu filtro pessoal, se perceberão toques de meu entendimento próprio. De Carné, optei por incluir “Os Visitantes da Noite” e não o consagrado “O Boulevard do Crime”; De Buñuel, “O Discreto Charme da Burguesia” a “Bela da Tarde”; De Godard, “Je Vous Salue, Marie” a algum dos cult-movies dos anos 60, como “Pierre Le Fou” ou “Alphaville”. Crítica pessoal pura, mas que em nada prejudica a representatividade da seleção como um todo.

Claro, ficou de fora uma enormidade de coisas, como “Lacombe Lucien”, de Malle, “Orfeu Negro”, de Camus, “Eu, um Negro”, de Rouch, “A Bele e a Fera”, de Cocteau, ou “Napoleon”, de Gance. Privilegiou-se os essencialmente franceses, por isso não aparecem co-produções como “O Último Tango em Paris” ou “A Comilança”. Também não entraram nada de Maurice Pialat, Eric Rohmer, Costa-Gavras, Jacques Demy, Jacques Rivette... Paciência. Além da impossível unanimidade de listas, uma como esta, que represente algo tão relevante e robusto, incorreria em incompletude. Uma coisa é certa: não perdemos tempo com irrelevâncias. Ah, isso não. Voilà!



- “Viagem à Lua”, de Georges Méliès (“Le Voyage dans la lune”, 1902)


- “A Nós a Liberdade”, de René Clair (“À Nous la Liberté”, 1931)

- “Zero de Conduta”, de Jean Vigo (“Zéro de conduite”, 1933)
Poster original de
"Zero de Conduta"

















- “A Regra do Jogo”, de Jean Renoir (“La Regle Du Jeu”, 1939)

- “Os Visitantes da Noite”, de Michael Carné (“Les Visiteurs du Soir“, 1942)

- “Orfeu”, de Jean Cocteau (“Orphée”, 1950)
A visão de Cocteau para a
saga de Orfeu













- “As Diabólicas” (“Les Diaboliques”), de Henri-Georges Cluzot (1955)

- “Meu Tio”, Jacques Tati (“Mon Oncle”, 1958)

- “Os Incompreendidos”, de François Truffaut (“Les 400 Coups”, 1959)
Cena do revolucionário
"Os Incompreendidos"













- “Os Primos”, de Claude Chabrol (“Les Cousins”, 1959)

- “Hiroshima, Moun Amour”, de Alain Resnais (1959)

- “Acossado”, de Jean-Luc Godard (“À bout de souffle”, 1960)


- “O Ano Passado em Marienbad”, de Alain Resnais (“L'Année dernière à Marienbad”, 1961)

- ‘Jules et Jim”, de François Truffaut (1962)

- “Cleo das 5 às 7”, de Agnès Varda (“Cléo de 5 à 7”, 1962)

- “La Jetée”, de Chris Marker (1962)
As impressionantes foos de Marker
que compõe a narrativa de "La Jetée"














- “Trinta Anos Esta Noite”, de Louis Malle (“Le feu follet”, 1963)

- “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luis Buñuel (“Le charme discret de la bourgeoisie”, 1972)

- “Je Vous Salue, Marie”, de Jean Luc Godard (1985)
"Je Vous Salue, Marie", a produção
mais recente da lista
junto com Betty Blue












- “Betty Blue”, de Jean-Jacques Beineix (“37° le Matin”, 1986)




segunda-feira, 2 de maio de 2022

As 30 melhores aberturas de filmes

 

Não sei quanto a quem não é cinéfilo de carteirinha, mas mais de uma vez me surpreendi tanto com a abertura de um filme, que a sensação imediata era a de quem nem precisava mais continuar assistindo. Foi assim quando, em 1995, na companhia de vários amigos – em sua maioria absoluta amantes de cinema mas não necessariamente cinéfilos – reunimo-nos para ver o VHS locado de “Pulp Fiction: Tempo de Violência”, do Quentin Tarantino. Eu não havia visto “Cães de Aluguel” ainda, seu primeiro e anterior longa, embora já ouvisse todo o debate em torno do nome do cineasta que dizia-se estar revolucionando o cinema. Mas o que me despertava maior interesse era, principalmente, porque o filme em questão havia ganhado a Palma de Ouro em Cannes. Isso, mais do que toda a celeuma sobre Tarantino significar ou não um novo capítulo na história da 7ª Arte (o que poderia ser, escaldado que sou, um exagero proposital, comum na mídia), de fato me surpreendia. Cannes desde cedo em minha vida cinéfila fez muito sentido, pois cresci assistindo seus premiados e indicados, que não raro eram (ainda são) alguns dos melhores filmes que já assisti, como “A Balada de Narayama”, “Coração Selvagem” e “Mephisto”. No caso de “Pulp Fiction”, ainda mais por saber tratar-se de um filme “comercial” norte-americano e não algum cult europeu ou asiático, isso, sim, chamava-me mais a atenção e despertava a curiosidade de vê-lo.

Pusemos a fita no videocassete. A grande maioria sabe o que acontece nos primeiros minutos de “Pulp Fiction”, né? A sequência do diálogo entre Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer) antes de assaltarem o restaurante e a entrada triunfal dos letreiros iniciais com “Miserlou” de Dick Dale arrasando com um surf-rock na trilha e, ainda pelo meio dos créditos, a mudança de música, como se alguém tivesse mudado uma estação de rádio para o funkão “Julgle Boogie”, da Kool & The Gang. Tudo aquilo, o estilo; a atmosfera pop; a inteligência da montagem; o bom gosto musical; o tom de tele-seriado B; a referência a Godard no nome da produtora A Band Apart: toda essa sequência minimamente bem pensada de como iniciar um filme me fez ficar absolutamente estarrecido. Somava-se a isso a engenhosidade da montagem no momento em que Pumpkin e Honey Bunny levantam-se sobre o banco do restaurante (e Roth diz: “I love, Honey Bunny”, e eles se beijam em close antes de apontarem as armas) e anunciam o roubo, a imagem congela e mantém-se o áudio das falas – estas, aliás, extremamente musicais, tanto que se tornam inseparáveis da música de Dale que vem na sequência no próprio disco da trilha sonora. Apaixonei-me pelo filme que mal havia começado.

"Pulp Fiction", Quentin Tarantino (1994)


Excitado, eu olhava para meus amigos na sala enquanto aquela série de genialidades iam surgindo da tela para observar suas reações, mas todos, embora estivessem, sim, gostando, nem de perto se exaltavam como eu. Aquele sentimento de arrebatamento era única e exclusivamente meu. Cheguei a perguntar, incrédulo: “Gente, vocês estão vendo a MESMA coisa que eu?!”. A resposta? Com desdém adolescente: “Sim, Dani, o que é que tem? O filme tá recém começando”. Sim, o filme estava recém começando, mas não de um jeito normal. Para mim (e para muito cinéfilo e estudiosos do cinema) confirmava-se ali a tal revolução cinematográfica atribuída a Tarantino. Não precisava nem ver o filme por completo: era certo que o cinema, então a 4 anos de completar seu primeiro século de existência, mudava a partir dali, e isso era o máximo de eu estar presenciando. Aprendi, naquela situação, que não era uma pena meus amigos não estarem vendo o mesmo que eu: era, sim, o que me diferenciava do senso comum na forma de ver e sentir cinema.

Não foi a primeira abertura de filme que me surpreendeu a de “Pulp Fiction”, claro, mas é certo que esta sensação de entusiasmo se me repetiu várias vezes. Seja em casa ou numa sala de cinema, de vez em quando sou pego de surpresa com algum começo de filme que, como um bom disco de música, sabe dar o start certo e cativar de cara quem o está apreciando, mesmo que a obra em si não corresponda tanto a seu bom início – embora seja geralmente um bom indicativo. Pois essa lista se propõe a elencar justamente isso: não os filmes inteiros, mas seus primeiros minutos. A rigor, por “openning scene” entendemos não somente o design de créditos, mas o suficiente para apresentar o filme, embora não seja necessariamente uma regra.

A junção de fatores, a inventividade na disposição dos letterings, a edição, o prólogo, o design, o impacto da cena, o significado simbólico para com a história que será contada: tudo conta para impressionar e construir uma introdução digna de memória. As maneiras de fazer, assim como de se contar uma história em imagens, são infinitas, e não há um jeito melhor que outro. O critério para a escolha destes 30 exemplos sem ordem de preferência – e que pode tranquilamente ser ampliada por novos filmes ou por títulos aos quais não me ocorreram – é apenas o da sentir-se conquistado já na largada por uma obra cinematográfica. Aqueles filmes que, contrariando a lógica, recomendo que não sejam necessariamente vistos até o final. Os primeiros minutos já bastam.

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“Era uma Vez no Oeste”, Sergio Leone (1968)

São pouco mais de 7 min de puro deleite daquela que é provavelmente a melhor abertura de um filme de todos os tempos. O filme de Leone, aliás, por si merece essa alcunha, mas se se destacar apenas o seu começo já está mais do que bem representado. O design, o cenário, os enquadramentos, a disposição criativa dos letterings, o tempo da montagem, a arte e o figurino, a fotografia. Tudo em perfeita sintonia e, mais que isso, conceitual, visto que apresenta, sem precisar valer-se da poderosa música de Ennio Morricone e quase sem nenhuma palavra dita, tal westerns do cinema mudo, as ideias centrais do filme: o embate ideológico entre passado e futuro, entre vida e morte, entre instinto e consciência..


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“Cassino”, Martin Scorsese (1996)

Lembro também de, no cinema, sentir a reação da sala ao surpreender-se com a explosão do carro do personagem Sam Rothstein, vivido por Robert DeNiro, em “Cassino”, nos idos de 1996. Uma reação espontânea do público, que, assim como eu, era abduzido para dentro da história em poucos minutos de fita transcorridos. Scorsese, justificadamente fã de Saul Bass, conseguira em vida trabalhar com o mestre do design de créditos cinematográficos ainda em dois filmes: “Cabo do Medo”, de 1991, e neste, do ano em que ele morreu.


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“Fahrenheit 451”, François Truffaut (1966)

A nouvelle vague foi o movimento que melhor soube subverter os padrões da linguagem cinematográfica. Esta ficção científica de forte crítica filosófica baseada na novela e Ray Bradbury, além de ser um dos melhores filmes de Truffaut e do cinema, inova desde o seu primeiro minuto. E de forma simples. Aliás: simples em formato, haja vista que se engendra apenas por uma sequência de imagens estáticas e monocromáticas em zoom in e uma locução que descreve aquilo que geralmente apareceria escrito. Porém, a simplicidade da sequência de "Fahrenheit 451" é de uma criatividade tamanha, visto que traduz conceitualmente o principal elemento da história, que é a proibição de qualquer material escrito num futuro distópico. Genial e simples.


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“Cidade de Deus”, Fernando Meirelles e Katia Lund (2002)

A experiência com "Cidade de Deus" também foi inesquecível. Fui assisti-lo pouco depois de seu lançamento já tomado pela fama em torno do filme. Na sala de cinema, pude comprovar estar diante da obra que demarca o antes e depois do cinema brasileiro, o filme que deu fim à dolorosa era da Retomada. E sua sequência introdutória (“Pega a galinha, pega a galinha!”), com a faca cintilante simbolizando o perigo, os fragmentos de imagens intercaladas por legendas, a foto em cores pulsantes, o som da lâmina sendo afiada misturado ao do samba para devorar a ave fujona. Uma cena de tensão que se cria em poucos minutos e que já diz a que o filme viera: para revolucionar o cinema nacional e mundial.


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“Um Corpo que Cai”, Alfred Hitchcock (1956)

Saul Bass foi, inegavelmente, o gênio do design de créditos em cinema. E quando a genialidade dele se encontrava com a de outros, como, no caso, Alfred Hitchcock, com quem colaborou mais de uma vez, aí era gol certo. Altamente conceitual, como os videoclipes musicais que passariam a existir apenas décadas depois, a entrada de "Vertigo", com o casamento perfeito com a trilha de Bernard Hermann e os efeitos especiais bastante ousados e criativos para sua época, ainda surpreendem. Se hoje fosse feito por computadores já seria louvável, imagina em 1956.


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“Psicose”, Alfred Hitchcock (1960)

Outro da colaboração Bass/Hitchcock, "Psicose" vale-se dos tradicionais grafismos que eram comuns ao trabalho de Bass, dono de um traço magnifico. A assustadora trilha de Hermann, sinônimo de thriller de suspense, é traduzida por linhas retas paralelas em p&b que se deslocam horizontal e verticalmente em conjunção com as letras, geram uma sensação de instabilidade e não-linearidade, ideia a qual, por sua vez, simboliza a perturbadora história do assassino psicótico Norman Bates. Junto com "Vertigo", aquele que é considerado o grande filme de Hitch. Não à toa.


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“O Segundo Rosto”, John Frankenheimer (1966)

Mais uma de Bass, esta perturbadora abertura de "O Segundo Rosto" é um verdadeiro exercício artístico. Valendo-se de potente trilha de Jerry Goldsmith e da trama de suspense psicológico do filme de Frankenheimer, Bass explora distorções como as do expressionismo alemão e carrega nas sombras e imagens projetadas em espelhos para, já de início, entrar na mente do espectador, que, a se confirmar pelo excelente longa, será conduzido a um mundo de medos e aflições internas. Poucas vezes uma introdução casou tão bem com a ideia central de uma obra. 


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“O Jogador”, Robert Altman (1992)

Esta cena já esteve destacada aqui no Clyblog por outro motivo: o plano-sequência. Pois Altman consegue com este engenhoso desenho de cena não apenas criar uma das melhoras sequências sem corte da história do cinema (afinal, o próprio filme trata sobre os bastidores da sua indústria) como, por conta exatamente disso, causar um incrível impacto já no início do filme, visto que o plano-sequência é justamente o que o abre. Altman, dos melhores do cinema autoral dos Estados Unidos, sabia como ninguém abrir suas obras, haja vista "Nashville", "M*A*S*H*" ou "Três Irmãs", mas nada bate a de "O Jogador".

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“Magnólia”, Paul Thomas Anderson (1999)

Outro dos que fui assistir no cinema é fui totalmente arrebatado. Também pudera: que forma criativa de se começar um filme! P.T.Anderson põe pra baixo o queixo do espectador num prólogo ao mesmo tempo divertido e instigante, que relaciona fortuitos momentos da história, para, ao final, triunfantemente, soltar a imagem da flor "Magnólia" abrindo-se em velocidade acelerada sobre a projeção de diversos vídeos. Além disso, tem a apaixonante música de Aimee Mann, a quem nem conhecia e passei a adorar por causa da trilha do filme. Inteligentemente, a aparente dissociação dos acontecimentos do prólogo antecipa a trama coral proposta pelo roteiro e a nada casual relação entre aquelas histórias paralelas. “Isto não foi uma coincidência”.

 

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“O Homem do Braço de Ouro”, Otto Preminger (1955)

Bass de novo, aqui na sua forma mais naturalmente criativa e genial: grafismos e desenhos com seu traço característico sobre um fundo preto e legendas sendo dispostas em conjunto com a música de Elmer Bernstein. A primeira parceria do designer com Otto Preminger, com quem trabalharia em vários outros projetos, também explora os meandros obscuros da mente humana, no caso, de um baterista de jazz viciado em heroína vivido incrivelmente pelo jovem (mas já ídolo) Frank Sinatra. Só o desenho do braço distorcido já é uma das mais felizes contribuições de Bass para a história do cinema e do design.


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“A Marca da Maldade”, Orson Welles (1958)

Outro que, assim como "O Jogador", também tem um dos grandes plano-sequências da história cinematográfica para começar o filme. Porém, havemos de dar ainda mais mérito para o sempre inquieto e criativo Orson Welles em ousar abrir um filme deste jeito nos anos 50, quando o cinema e os espectadores tinham como padrão o formato convencional de créditos iniciais. Nunca se havia visto uma cena de abertura tão complexa, com vários atores e figurantes em cena, câmara em travelling, mudança de enquadramento de primeiríssimo plano para planos médios e grande, num espaço físico extenso e com direito até à explosão. E tudo isso SEM corte. Caramba! Como se não bastasse, o longa confirma todas as expectativas de seus de minutos iniciais naquele que é, talvez, o grande de Welles.


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“Uma Mulher É uma Mulher”, Jean-Luc Godard (1961)

Godard, assim como Truffaut e seus companheiros de nouvelle vague, nunca deixaram de inovar a maneira de começar a contar suas histórias. O suíço, aliás, comumente radical, já fez muito filme que, a rigor, não começa nunca – e nem “termina”, consequentemente, como “Je Vous Salue, Marie” ou “FilmSocialisme”. Mas uma das marcas que Godard nunca abandonou é o trato formal da tipografia dos letterings, os quais se utiliza geralmente com fontes não serifadas tipo Futura ou Arial (e nas cores da bandeira da França) sobre fundo escuro, encurtando os limites entre poesia concreta, cinema, vídeoarte e literatura. Caso de “Uma Mulher é Uma Mulher”, que ele faz a proeza de apresentar genialmente em menos de 2 min.


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“Fellini 8 1/2”, Federico Fellini (1963)

Fellini não cria suspense nenhum em relação ao nome do filme, o qual aparece já no segundo frame sobre fundo escuro na forma da conhecida logo. Mas a partir dali o que se vê até os 3 min que se transcorrem é a mais absoluta genialidade felliniana. A história do cineasta pressionado pela crise de criatividade é expressa numa espécie de prólogo onírico minuciosamente bem construído. O claustrofóbico engarrafamento, cuja mudez é ensurdecedora, e os olhares condenatórios à sua volta, sufocam aquele homem sem rosto dentro de seu carro a ponto de fazê-lo... sair voando! A lindeza do sonho se encerra numa praia, sobrevoando o mar e sendo puxado por uma corda da areia por ele próprio, que tem a companhia de um homem de capa sobre um cavalo negro. E o melhor: o oitavo filme (mais um média) de Fellini mantém esse nível até o fim.



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“2001: Uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick (1969)

 A ficção científica que estabeleceu o padrão do gênero para sempre é uma aula de narrativa para realizadores até hoje, o que inclui sua marcante abertura. Copiado e referenciado centenas de vezes, o início de "2001", de apenas 1 min30’, é, contudo, dos mais originais da história da 7ª Arte. Traduzindo em imagens siderais grandiosas a impactante abertura da sinfonia "Also Sprach Zarathustra", de Richard Strauss, Kubrick mostra o raro alinhamento do planeta com Sol com a Lua valendo-se, para isso, de poucos mas precisos elementos: tela escura que vai aos poucos revelando a imagem e apenas três letreiros em tipografia Futura: “Metro-Goldwyn-Mayer Presents”, “A Stanley Kubrick Production” e o nome do filme em tamanho maior (com o detalhe do Copyright abaixo bem pequeno). Separadamente do filme, só esse trecho já pode ser considerado uma obra-prima.


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“O Poderoso Chefão, Francis Ford Coppola (1972)

Este é um caso de uma forma própria de apresentar a história. O nome, através da bela logo com a mão divina comandando a marionete com o letreiro “Mario Puzo’s The Godfather” e os acordes da clássica música tema de Nino Rota, já está garantido no segundo frame. Porém, os 6 minutos seguintes apenas de diálogos traduzem diversos níveis narrativos e simbólicos que serão trazidos nas quase 3 horas de fita subsequentes. As relações de poder, a inteligência manipuladora do Padrinho, os valores familiares, os papeis sociais, os meandros dos poderosos... muita coisa é dita ou subentendida até o momento em que Vito Corleone (Marlon Brando, espetacular) cheira a rosa de sua lapela e dá-se continuidade à “festa”. 


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“A Terceira Geração, Reiner Werner Fassbinder (1979)

Um dos maiores estetas do cinema, o alemão Fassbinder deve muito de suas criativas aberturas de filmes a um contemporâneo e conterrâneo seu ligado à arte moderna a quem muito se inspirava para isso: Joseph Beuys. Não raro, as introduções de seus filmes referenciam o estilo de Beuys, com tipografias monocromáticas dispostas sobre imagens em movimento ou estáticas, criando peças dignas de galerias expositivas. O começo de “A Terceira Geração” é um deles, com os créditos pulsando no ritmo de uma batida cardíaca enquanto vão sendo apresentados sobre um zoom out que vai descortinando um apartamento com telas, móveis e pessoas.


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“Assassinos por Natureza, Oliver Stone (1994)

Cineasta pautado pelo experimentalismo, Oliver Stone desde seu primeiro longa, “Platoon”, de 1986, sempre soube começar bem um filme. Porém, 8 anos depois, ao invés de tornar-se mais conservador, Stone mostra-se saudável e surpreendentemente ainda mais ousado com o altamente pop e sarcástico “Assassinos por Natureza”. O começo do filme é visivelmente influenciado pela linguagem dos videoclipes da MTV, emissora à época em alta, seja pelos enquadramentos distorcidos, pelo movimento de câmera frenético, pela alteração brusca de ISO ou pela montagem de ritmo musical. Tão musical, que, na cena, o violento casal espanca e mata pessoas em um restaurante com absoluto prazer ao som do punk-rock da L7. 


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“Persona, Ingmar Bergman (1960)

Um dos maiores cineastas de todos os tempos, Bergman tinha total domínio da narrativa. Porém, a introdução de seus filmes invariavelmente traziam a fonte Times sem serifa sobre fundo escuro. Mas Bergman sabia quando contrariar o próprio estilo, e o profundo “Persona” incitou-lhe a isso. Num conceito de vídeoarte – já existente nas galerias contemporâneas mas pouco exploradas no cinema de arte –, o cineasta funde imagens em alta profusão, usa fotos reais e ousa em enquadramentos e fotografia p&b. Tudo de forma a criar uma atmosfera de sonho e fluidez do tempo/espaço o qual Bergman tão bem constrói naquele que é considerado“o filme mais difícil de todos os tempos”.


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“Cidadão Kane, Orson Welles (1940)

Em seu primeiro longa, o então jovem Welles, com apenas 25 anos, inovava consideravelmente o modo de abrir uma história filmada. Aliás, não somente essa parte, mas em diversos aspectos da linguagem cinematográfica daquele que é ainda hoje para muitos o melhor filme de todos os tempos. Quanto à introdução, mesmo com o título revelado imediatamente ao começo (seria muita transgressão não informar pelo menos isso ao público da época), nunca havia se visto um prólogo in média rés (com o qual se começa uma narrativa no auge da ação antes de começar de novo para explicar como se chegou lá), tão comum hoje. Enigmática (o que será aquele "Rosebud" dito antes do cara morrer?!), a primeira imagem que aparece traz uma placa com a mensagem “No Trapessing” (“Não Ultrapasse”). Era Welles, o mesmo que anos antes havia apavorado multidões com a transmissão em rádio d'"A Guerra dos Mundos", manipulando o subconsciente do espectador.


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“Manhattan, Woody Allen (1979)

Assim como Bergman, Allen tem um estilo geralmente muito próprio de iniciar seus filmes, quase que invariavelmente com legendas em fonte tipo Windsor Light Condensed e uma música inteligentemente bem selecionada para sonorizar. Porém, como o mestre sueco em "Persona", Allen também sabe transgredir a si próprio. Em "Manhattan", ao invés do fundo preto com letterings, ele monta uma pequena sinfonia urbana com uma sequência de imagens documentais e poéticas de sua Nova York num cristalino p&b. A sutileza da forma como anuncia o título (e nada mais que isso), num letreiro luminoso de uma rua qualquer do bairro, prevê a abordagem que será dada aos personagens do filme: todos meras continuações do próprio corpo da cidade. Poesia.


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“Laranja Mecânica, Stanley Kubrick (1971)

Com total domínio do fluxo narrativo, Kubrick é um craque das aberturas. "O Grande Golpe", "O Iluminado" e o já citado "2001: Uma Odisseia no Espaço" são exemplos, mas outro diferenciado neste sentido é "Laranja Mecânica". Uma música feita em sintetizador começa sobre uma tela vermelha até quase 30 segundos, quando finalmente surgem os primeiros letterings numa tipografia Arial negritada. Percebe-se, então, que a tal música é uma versão eletrônica da peça “Music for the Funeral of Queen Mary”, de Henry Purcell, do século XVII. O fundo vermelho se transforma em azul e, de novo, em vermelho para anunciar o nome do filme. Até que, num corte brusco, muda para o close da figura andrógena de Alex (Malcom McDowell), personagem principal da história de Anthony Burgess. Dessa imagem, Kubrick não corta novamente e, sim, a faz prosseguir num travelling frontal-out sob o off do brilhante texto que reproduz o fluxo de pensamento de Alex, o qual situa o espectador do universo de distopia que se verá a partir dali.


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“Arizona Nunca Mais”, Joel e Ethan Coen (1987)

A abertura do segundo e cativante filme dos irmãos Coen, quando eles ainda eram uma revelação, no final dos anos 80, é tão criativa, engraçada, pop e publicitária (no bom sentido), que serve como trailer. A história do assaltante pé-rapado H.I. McDonnough (Nicholas Cage) contada em off por ele mesmo enquanto as imagens vão sendo exibidas com a trilha magistral de Carter Burwell – suas idas e vindas pra cadeia, os personagens bizarros que conhece no caminho – denotam, pelo brilhante texto, principalmente, seu coração bom. O mesmo que o faz conhecer o amor de sua vida, a policial Ed (Holly Hunter). Depois, eles resolvem sequestrar um dos sete bebês da ricaça família Arizona, mas aí é que a história mesmo começa...

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“Alien: O 8º Passageiro”, Ridley Scott (1979)

Lembrando a abertura de "2001", filme ao qual Scott bastante homenageia neste revolucionário terror espacial, tem, assim como na obra de Kubrick, um desenho de cena simples mas muito eficiente. Uma câmera se desloca no espaço da esquerda para a direita em uma panorâmica enquanto veem-se manchas brancas surgirem, as quais vão formando numa uniformidade não-sequencial o nome “Alien” em uma fonte pesada e sem serifa. Não há nos créditos, mas diz que também é obra de Saul Bass.


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“Monty Python em Busca do Cálice Sagrado”, Terry Gilliam e Terry Jones (1975)

Como avacalhar os créditos iniciais de um filme? O grupo Monty Python tem a resposta. Em “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado”, usando praticamente só tipografia e tela preta, eles conseguem subverter tudo que se imagina de uma opening scene. Sob uma trilha austera, os subtítulos são exibidos, até que, bem abaixo, algumas palavras com caracteres escandinavos começam a aparecer. Frases totalmente desconexas como “Não vai ter feriado na Suécia este ano?” ou uma história esquisita de um alce que mordeu a irmã de alguém. Eis, então, que surge um crédito para explicar o erro nos créditos: “Nos desculpamos pela falta de subtítulos. Os responsáveis foram despedidos”. Muda a música, mas as intromissões continuam, e um novo aviso, agora de que os responsáveis por demitir os demitidos também foram demitidos. Já com uma absurda trilha mexicana, a confusão segue até o fim e, com muito “esforço”, conseguem dar o nome dos diretores: Terry Gilliam e Terry Jones, principais responsáveis por essa bagunça toda.



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“007: O Espião que me Amava”, Lewis Gilbert (1977)

Poderia citar vários tanto anteriores ou posteriores a este filme, mas esta de "O Espião que me Amava" se tornou uma referência dentro da própria franquia. A começar que a abertura com créditos nunca está dissociada do prólogo, que sempre começa com a famosa “gun barrel sequence”, em que um vilão qualquer está olhando por uma mira e vê 007 entrar em cena e atirar contra ele. Depois, os minutos de ação, neste caso, mostrando o agente em duas de suas situações comuns: namorando e se aventurando. Já a abertura em si, assinada pelo mestre Maurice Binder, designer gráfico que estabeleceu o estilo das clássicas aberturas dos filmes de James Bond, consolidaria os elementos que caracterizariam para sempre as chamadas iniciais da série: arte figurativa com efeitos de elementos da história, uso da figura/silhueta de figuras e pessoas - como a do próprio ator que faz JB (Roger Moore à época) -, a fonte Arial fina e branca, o disparo de pistola e, claro, uma trilha especial feita para aquele filme, no caso "Nobody Does it Are Bether", com a Carly Simon – das melhores.


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“Crepúsculo dos Deuses, Billy Wilder (1945)

O sucesso de consagradas comédias como “Se Meu Apartamento Falasse” e “Quanto Mais Quente Melhor” fez com que Wilder ficasse pouco lembrado por outros gêneros como o suspense e o drama aos quais, contudo, ajudou a solidificar um novo padrão de qualidade na Hollywood dos anos 40 e 50. Este clássico do cinema é uma prova de sua versatilidade, o que deve bastante de seu impacto pela forma como inicia. O modo aparentemente fortuito como o título aparece, numa placa indicando o mítico endereço “Sunset Boulevard”, é precedido por uma câmera em travelling filmando o asfalto cinza na direção de algum lugar específico. É onde está o corpo desfalecido do narrador. Sim! Como em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", em "Crepúsculo dos Deuses" é o morto, afogado numa piscina, quem está narrando pleno de consciência de seu estado moribundo. Impossível não ter curiosidade de assistir até o fim.



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“Apocalypse Now”, Francis Ford Coppola (1979)

Não há nenhuma palavra escrita dizendo que filme é. Mas nem precisa. O grande plano de uma floresta é aos poucos invadido por helicópteros que cruzam a tela e uma fumaça começa a levantar. Percebe-se, porém, que a fumaça não é de areia, mas, sim, o venenoso napalm. Até que várias bombas caem sobre a mata, provocando gigantescas explosões. A música que toca não podia ser outra: “The End”, da The Doors. É um presságio. É a guerra. É o Vietnã. É “o horror”. Diversas imagens apocalípticas se fundem ao rosto de um homem em close, o personagem principal do filme, o perturbado Capitão Benjamin Willard (Martin Sheen). A sensação de quebra no tempo perfaz todo o longo filme, que perscruta os mais terríveis meandros psicológicos da guerra.


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“Cléo das 5 às 7”, Agnés Varda (1962)

Outra grande esteta do cinema moderno, Varda pautou toda sua filmografia pela inventividade narrativa e estética, a qual passava por um filtro muito pessoal. Em "Cléo das 5 às 7", seu primeiro longa, fica clara esta criatividade seja na forma como no conteúdo. A mesa de uma cartomante é filmada em plongê mostrando somente o baralho e as mãos dela e da cliente. Os subtítulos em branco são gerados conforme a disposição das cartas sob um silêncio que provoca tensão. Que mensagem as cartas vão dizer? E dizem: a jovem Cléo tem apenas 2 horas de vida, o tempo que o filme transcorrerá: das 5 da tarde às 7 da noite. Varda dá um show em montagem e no jogo simbólico entre cor, que aparece somente quando as cartas são lidas (supostamente, enquanto ainda há vida), e p&b, que domina o filme, marcado pela agourenta previsão que atormentará a personagem.



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“A Pantera Cor-de-Rosa”, Blake Edwards (1963)

Um modo interessante de se abrir filmes – e que fecha muito bem para comédias – é a animação. No entanto, como as da série Pink Panther, não tem igual, principalmente a do primeiro da franquia. A atrapalhada mas elegante pantera de cor exótica criada pelo próprio Blake Edwards virou desenho animado para a TV depois do filme tamanho o sucesso que fez exatamente na abertura do filme, assinada pelos designers e animadores David H. DePatie e Fritz Freleng. Aliás, este é o único momento em que ela, fugindo do ainda mais atrapalhado inspetor Jacques Clouseau, aparece, visto que o nome Pantera Cor-de-Rosa é o de uma pedra preciosa na trama. Além da simpatia da Pantera, ainda tem a infalível trilha do genial Henri Mancini, uma música altamente charmosa e de fácil assimilação, tanto que virou o tema de jazz mais conhecido de todos os tempos.




Daniel Rodrigues