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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Espetáculo “Cantando o Grande Circo Místico” – Teatro Guairinha – Curitiba/PR (26/07/2014)




Todos os cantores no palco
coma banda ao fundo
É legal quando um passeio te revela surpresas. Uma dessas aconteceu numa rápida e recente passagem por Curitiba. Andando de ônibus turístico, ao passar por um dos pontos clássicos da cidade, o Teatro Guaíra, no Centro, Leocádia Costa e eu deparamo-nos com um cartaz de que ocorreria um espetáculo em homenagem aos 45 anos da companhia de balé da casa com a execução d’”O Grande Circo Místico”, encenado pela companhia em 1983 e que, com músicas de Chico Buarque e Edu Lobo, é, para alguns, a melhor trilha sonora da MPB de todos os tempos. Pois não é que as únicas três apresentações aconteciam justamente nos dias em que estaríamos na capital paranaense? Valor acessível e Ingressos disponíveis, refizemos na hora nosso programa de sábado à noite e assistimos ao “Cantando o Grande Circo Místico” no Auditório Salvador de Terrante, mais conhecido como Guairinha, sala também tradicional mas um tanto menor do que a oficial.

Fantasias da montagem original
do Balé Guaíra, de 1984
Montado por um grupo local, o show teve suas coisas boas e outras nem tanto, mas que não foram suficientes para apagar a emoção de ouvir aquelas peças ao vivo e numa situação tão simbólica. Com direção geral e cênica de Rodrigo Foros e direção musical e arranjos de Vicente Ribeiro, o espetáculo restringiu-se a apresentar apenas a parte musical de “O Grande Circo Místico” (por isso, o “cantando” do título). Ou seja, nada de bailarinos. Até aí tudo bem; porém, é quando começam os adendos. O figurino de festa dos cantores (?) e a iluminação exagerada ficaram totalmente destoantes do tema circense e de sugerida isenção no que se refere à parte cênica (afinal, se seriam tocadas apenas as músicas, porque não um visual mais clean?).

Entretanto, a obra em si é tão grandiosa e tocante que, mesmo que se esforçassem em fazê-la errado, ainda assim acertariam. E acertaram num bom bocado. Executada na ordem tal como fora concebida para a peça (e como ficou eternizado no disco, lançado pela Som Livre), tinha nos competentes instrumentistas a sustentação necessária. Lindíssimo ouvi-los, ainda com as cortinas fechadas – após a leitura a capella do poema originário da peça, “A Túnica Inconsútil”, de Jorge de Lima, de 1938 –, tocarem a maravilhosa “Abertura do Circo”. Já ali se instaurou a magia. Na sequência, uma decisão inteligente de arranjo: ao invés de colocar um cantor para rivalizar com a histórica interpretação de Milton Nascimento em “Beatriz”, das mais lindas do repertório – que certamente se sairia perdendo –, chamou-se quatro dos 12 cantores, duas vozes masculinas e duas femininas. Ficou bonito e sem dar margem a comparações. Ribeiro criou belos contracantos, que dignificaram o tom etéreo da canção.
Bela interpretação para
"Sobre Todas As Coisas"

“Opereta do casamento”, com todas as vozes no palco, funcionou super bem, mas “Valsa dos Clowns”, uma antes, já derrapou um pouquinho na voz grave da cantora, que, embora tenha desempenhado bem, destoou por isso menos pela comparação com a voz doce de Jane Duboc na original e mais pela composição em si, que pede lances de maior suavidade. Porém, veio em seguida uma performance linda de “A História de Lily Brown”, digna da sensualidade impressa por Gal Costa. Outra que ficou joia foi “Meu Namorado” (“Meu namorado/ Meu namorado/ Minha morada/ É onde for morar você”), mesmo que num breve momento a cantora tenha esquecido a letra, retomando-se rápido a ponte de alguém menos fã e de ouvido menos atento não perceber.

Numa rápida inversão de faixas, a ótima banda antecipou a instrumental “O tatuador” – que teve ganho na ambiência ao vivo – para emendar com a chorosa “Sobre todas as coisas”, em que, corajosamente, pôs-se para cantar uma voz superaguda, muito diferente da introspectiva entonação dada por Gilberto Gil na primeira versão ou da própria regravação em estilo blues de Chico Buarque. Mas ficou legal! A moça não resvalou em nenhum momento, e olha que, daquele jeito, a oscilante melodia levaria facilmente a isso.

Momento de "A Bela e a Fera",
das melhores do repertório
A esse ponto, nós, admiradores da obra, já estávamos totalmente absortos naquele universo e a emoção vinha fácil. Ponto alto do disco, “A Bela e a Fera”, das melhores músicas de todo o cancioneiro de Chico e Edu, infelizmente não foi assim tão brilhante no show. O instrumental, excelente, mas... Cantada por um rapaz que mais gesticulava que cantava, perdeu em força, principalmente se se lembrar do estrondoso vozeirão de Tim Maia. Pra piorar, no ápice emocional do número, o rapaz, comovido demais com a honra que lhe coube, esqueceu-se da letra! Ele disse: “Ó, bela, faz da besta-fera um príncipe cristão...”. E parou. Constrangido, ainda conseguiu se lembrar de alguma coisa e desfechou com os versos: “Abre o teu coração/ Ou eu arrombo a janela”. Foi chato, mas é tão especial ouvir essa ao vivo que nem chegou a incomodar.

Em seguida, fizeram jus a uma das melhores sequências de faixas de toda a MPB, a que emenda “A Bela e a Fera” com “Ciranda da Bailarina”, esta última não com um coral infantil, mas com um cantor. E ainda por cima: vestindo uma burlesca saia de bailarina sobre a calça do paletó e um véu na cabeça. Além de bem interpretado, ficou engraçado, ainda mais quando “reproduziu” alguns passos de dança na ponta dos pés. A suave “Circo Místico” soou honesta, levantando a bola para a sacolejante marchinha circense “Na carreira”, quando todos retornaram ao palco para entoar: “Ir deixando a pele em cada palco/ E não olhar pra trás/ E nem jamais/ Jamais dizer/ Adeeeeeeus!”.
Cantor veste-se de bailarina
no lance mais cômico da noite

Fechando novamente com o tema da abertura, merecidos aplausos ao espetáculo, que, mesmo com a breguice das roupas e da iluminação (a qual desconfiamos ser um incômodo traço curitibano...) e os acidentes de percurso, conseguiu emocionar tanto adultos quanto crianças na sala lotada. Além do mais, deu pra sentir um pouquinho do clima da célebre montagem ao ver os figurinos originais no hall do teatro. Ali estava, despida, a magia do espetáculo, o belo “fingimento” da vida no palco. Será que é “loucura”, “cenário”, “mentira”, “comédia”? Com erros e acertos, ficou a certeza de que, como diz a letra, esse “truque banal” é o que “sustenta a vida real”.




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